'Ratos de biblioteca': na era digital, leitores mantêm paixão por livros físicos em acervos públicos

  • 12/10/2026
(Foto: Reprodução)
'Ratos de biblioteca': leitores do interior de SP preservam hábito de emprestar livros Eles circulam em ambientes silenciosos e exploram as estantes, os volumes, as páginas. Não é à toa que os leitores vorazes são carinhosamente chamados de “ratos de biblioteca”. Enquanto os pequenos animais se embrenham pelos cantos, quem ama ler se perde entre as prateleiras explorando mundos e acumulando conhecimento. Neste 12 de outubro, Dia Nacional da Leitura, o g1 conversou com alguns desses “ratos de biblioteca”, leitores da região que, mesmo diante das facilidades digitais e tecnológicas, ainda preservam o hábito de frequentar bibliotecas e emprestar livros. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp É o caso da analista de mídias sociais Bruna Franco, estimulada a ler desde a infância pelos pais e na escola. Ela contou como se transformou em uma frequentadora assídua da Biblioteca Municipal Professor Olavo Valente de Almeida, em Itu (SP), localizada no Centro Ituano de Letras e Artes (CILA). “Ganhava livros de presente dos meus pais e havia atividades de leitura na escola. Na adolescência, isso aflorou mais. Li Júlio Verne, Agatha Christie e J. R.R. Tolkien. Um dos livros que mais gosto é Orgulho e Preconceito, da Jane Austen. Já emprestei várias vezes na biblioteca. Ela foi uma mulher à frente do tempo e esse é um livro que é preciso ler nas entrelinhas”, disse. Estímulos à leitura em casa e na escola levam leitores aos acervos físicos de Sorocaba (SP) e região Arquivo Pessoal/Divulgação Fã de literatura clássica e descobrindo os autores coreanos, Bruna começou a frequentar a biblioteca ainda adolescente. “Eu não tinha condições para comprar e a biblioteca permitiu esse acesso aos livros. Hoje, empresto um exemplar a cada duas semanas. Já li 32 livros neste ano e um dos que mais gostei foi Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus”. Bruna costuma chegar à biblioteca já tendo em mente o livro que vai emprestar. Mas nem sempre os títulos da seleção pessoal estão disponíveis. Então, ela busca alternativas entre as quase 38 mil opções disponíveis, segundo a prefeitura de Itu. “As bibliotecas têm um papel muito importante de permitir esse acesso à leitura, algo que é um direito. Nem todo mundo pode comprar livros, porque esse é um dinheiro que faz diferença na vida das pessoas. Temos que dar valor a esses espaços para que eles não desapareçam”, frisou a analista de mídias sociais. Bruna Franco: fã de literatura clássica, já leu Orgulho e Preconceito diversas vezes e está descobrindo os autores coreanos Arquivo Pessoal/Divulgação Prateleiras de opções O jornalista Marcelo Santana concorda que o preço dos livros é um fator para preferir emprestá-los, mas não o único. Ele também mencionou a questão do espaço para armazenar tantos volumes, caso comprasse títulos sempre que quisesse ler. Frequentador da Biblioteca Municipal “Jorge Guilherme Senger”, em Sorocaba (SP), ele afirmou que começou a ir até o espaço na adolescência. “Comecei a ler mais no ensino médio e pegava livros na biblioteca da escola. Também tive estímulo nas aulas de português, um professor incentivava. Um dos primeiros livros que me marcou foi 'O Primo Basílio', de Eça de Queiroz. Gostei da escrita e da forma como a história é contada”, relatou. Hoje trabalhando perto da Biblioteca Municipal de Sorocaba, Santana frequenta o acervo em busca de literatura clássica, histórias de suspense e romances, mas disse estar sempre aberto às opções que encontra ao acaso, enquanto anda pelo espaço “É legal ir à biblioteca e andar para escolher, analisando as capas e as sinopses. Sempre descubro algo novo. Há uma variedade enorme de opções, tanto de autores já conhecidos quanto de novos escritores e gêneros também”. Quando tem dificuldade de escolher o próximo livro para ler, Santana disse recorrer a uma das escritoras preferidas. “Uma das minhas autoras favoritas é Agatha Christie, uma autora de romances policiais. Na biblioteca municipal, tem muitos livros dela. Quando estou sem ideia do que ler ou quando estou com a famosa ‘ressaca literária’, vou até lá, olho os exemplares e escolho um livro dela. Geralmente, acaba valendo muito a pena”, revelou. O jornalista Marcelo Santana frequenta a Biblioteca Municipal de Sorocaba (SP) e sempre descobre livros e autores novos nas estantes Arquivo Pessoal/Divulgação Estímulo desde cedo Isis Nadir Lima Cruz e a filha Amelie, de 2 anos, frequentam a Biblioteca Municipal todas as semanas. Ao estimular o contato da menina com os livros desde cedo, ela repete o incentivo que teve na infância. “Meus pais sempre incentivaram muito, havia muitos livros e gibis pela casa e a escola também estimulava. Pensando nisso, desde que ela nasceu, eu proporciono esse contato e acho importante trazê-la à biblioteca e estimular a leitura para o desenvolvimento e o vocabulário dela”, relatou Isis. Esse estímulo à leitura na biblioteca se estendeu para a rotina de Amelie em casa, onde os livros sempre ficam à disposição da menina e a hora da leitura é sagrada. “Eu sempre levo livros para casa. Temos o horário de leitura antes dela dormir. Durante o dia, eu deixo os livros na altura dela e à disposição para que ela possa ver. Ela vai folheando, vendo os animais, falando as cores e tendo esse tempinho dela explorando os livrinhos, daí vai surgindo o gosto”. Isis Nadir Lima Cruz e a filha Amelie, de 2 anos: contato com os livros desde cedo e visitas semanais à Biblioteca de Sorocaba (SP) Erick Rodrigues/g1 Leitura para todos Incentivar a leitura na era digital é um desafio, admitiu Fabiana Campolim, gestora da Biblioteca Municipal de Sorocaba e da Biblioteca Infantil “Renato Sêneca de Sá Fleury”. Mas esses espaços ganharam programações de atividades que transformam o conteúdo dos livros em experiências para estimular, principalmente, o contato dos jovens com a literatura. “Um dos princípios básicos da biblioteca é a promoção cultural. Nós temos, por exemplo, uma infinidade de livros de artesanato e, por isso, podemos vivenciar esse artesanato que está dentro dos livros. Nós temos muitos livros sobre música, então, podemos colocar uma banda de rock aqui. As oficinas culturais fazem muito sentido, porque nós trazemos de forma lúdica o conteúdo dos livros. Podemos trazer qualquer tipo de atividade para dentro da biblioteca, o munícipe vivencia isso e fica curioso para ler o que vivenciou na prática”. Segundo a gestora, o incentivo proporcionado pelas atividades culturais, aliado à capacitação dos servidores para atender e, até mesmo, dar dicas de leituras aos frequentadores tem surtido efeito. A Biblioteca Municipal de Sorocaba empresta, em média, 1,6 mil livros por mês e conta com um acervo de mais de 42 mil títulos. As atividades culturais também fazem parte da rotina da Biblioteca Infantil, localizada na região central. Fabiana contou, inclusive, perceber a migração do público infanto-juvenil desse espaço para a Biblioteca Municipal, que fica no Alto da Boa Vista. “Trabalhamos para que as crianças e os adolescentes tenham vínculo com a biblioteca, para irem e permanecerem nesses espaços. Hoje, estamos felizes, porque o público-alvo permanece na Biblioteca Infantil, passam a tarde toda lá e fazem trabalhos escolares. E, quando viram jovens adultos, eles já têm um vínculo e ir à Biblioteca Municipal, que tem um perfil mais de silêncio e conta com uma grande concentração de acervo, fica muito mais prazeroso”, explicou a gestora. Biblioteca Municipal de Sorocaba conta com mais de 42 mil títulos e empresta, em média, 1.600 volumes Erick Rodrigues/g1 Espaços comunitários Além das bibliotecas municipais, Sorocaba conta com outros espaços abertos à comunidade e que proporcionam contato com os livros. Há mais de 20 anos, o Centro Esportivo do bairro Maria Eugênia conta com uma biblioteca comunitária, que disponibiliza mais de três mil títulos e é mantida pela Associação Beneficente Kairós. “O foco do nosso acervo é o material infantil, mas também contamos com obras raras e muitos textos de teatro, que, muitas vezes, não estão disponíveis na internet. O grande lance das bibliotecas é o contato com o livro. As crianças vão e ficam felizes, se apropriam dos volumes e querem levar. Nós deixamos, temos uma caixa de doações e os adultos também acabam encontrando opções”, relatou Angeles Paredes Toral, gestora da biblioteca. O projeto conta, ainda, com uma segunda unidade, abrigada em um dos vagões da Estação Ferroviária Paula Souza, onde está o Centro de Memória Ferroviária. “Nós equipamos o espaço e temos, inclusive, livros em braile. Os dois espaços são inclusivos e, na estação, temos uma plataforma para acessibilidade. E já planejamos, para 2027, um terceiro espaço de leitura”, finalizou a gestora. Biblioteca Comunitária do Maria Eugênia tem acervo focado no público infantil, mas também conta com obras raras e textos de teatro Arquivo Pessoal/Divulgação Gestora da Biblioteca Municipal de Sorocaba, Fabiana Campolim vê incentivo à leitura na era digital como desafio Prefeitura de Sorocaba/Divulgação Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/10/12/ratos-de-biblioteca-na-era-digital-leitores-mantem-paixao-por-livros-fisicos-em-acervos-publicos.ghtml


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