PF investiga se casal suspeito de furtar vírus da Unicamp tentou vender amostras biológicas
01/04/2026
(Foto: Reprodução) Furto de vírus na Unicamp: PF diz que também investiga marido de pesquisadora e descarta risco à população
Arquivo pessoal
A Polícia Federal (PF) investiga se a professora doutora Soledad Palameta Miller, e o marido dela, o veterinário e doutorando Michael Edward Miller, suspeitos do furto de vírus de um laboratório NB-3 da Unicamp, tentaram vender as amostras biológicas.
Embora ainda não tenha elementros concretos sobre essa possível venda, a PF informou que investiga a hipótese. Soledad e Michael são sócios na empresa Agrotrix Biotech Solutions, que tem como atividade principal a pesquisa e o desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais.
Ao menos 24 cepas diferentes de vírus foram levadas do Laboratório de Virologia, do Instituto de Biologia (IB), para outros laboratórios dentro da universidade - entre eles, estruturas da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), onde Soledad atuava.
Professora da Unicamp investigada por furto de vírus estuda vacinas e doenças em animais
De acordo com a Polícia Federal, as amostras de vírus foram recuperadas em prédios da Unicamp, sem indícios de contaminação externa ou terrorismo biológico.
A professora responde ao processo em liberdade, enquanto a Unicamp conduz uma sindicância interna sobre o caso.
Em sua única manifestação sobre o caso, a defesa de Soledad afirmou que não há materialidade de furto, sustentando que a pesquisadora utilizava o laboratório do Instituto de Biologia por não dispor de estrutura própria para realizar suas pesquisas.
O g1 não conseguiu contato com a defesa de Michael Edward Miller até a última atualização da reportagem.
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MPF investiga se Unicamp falhou no controle e na fiscalização de material biológico
MPF apura possível falha da Unicamp
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento para apurar se a Unicamp falhou no controle e fiscalização de material biológico sensível, após o furto de vírus de um laboratório NB-3.
Entre as 24 cepas diferentes de vírus levadas do Laboratório de Virologia, estavam amostras de dengue, chikungunya, zika, herpes, Epstein-Barr, coronavírus humano e outros menos conhecidos, além de 13 tipos de vírus que infectam animais. Também havia amostras dos vírus da gripe tipo A.
Segundo o MPF, o objetivo do procedimento é "apurar a regularidade do acondicionamento, controle e fiscalização de material biológico sensível no âmbito da instituição, bem como a eventual existência de falhas estruturais ou procedimentais que tenham contribuído para o desaparecimento das amostras, com potencial repercussão sobre a saúde pública".
O MPF explicou que expediu ofício à Unicamp e que o procedimento é destinado à coleta de informações e verificação da existência de elementos que justifiquem uma possível abertura de Inquérito Civil. O caso já é investigado criminalmente, e tramita sob sigilo.
Em nota, a Unicamp informou que não foi notificada pelo MPF e, assim que receber a notificação, "a universidade responderá".
10 pontos para entender o caso
Pelo menos 24 cepas diferentes de vírus foram levadas de um laboratório da Unicamp
Entenda abaixo, em 10 pontos, o que já se sabe sobre o caso e o andamento da investigação:
Local do crime: As amostras biológicas foram retiradas sem autorização do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia (IB), uma área de nível 3 de biossegurança (NB-3), o mais alto patamar de contenção laboratorial no Brasil para agentes infecciosos.
Principais suspeitos: A investigação aponta a professora Soledad Palameta Miller, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), e seu marido, o veterinário e doutorando Michael Edward Miller, como os suspeitos pelo furto do material biológico.
Vírus furtados: Segundo apuração do Fantástico, foram levadas pelo menos 24 cepas diferentes, como dengue, zika, chikungunya, herpes, coronavírus humano e 13 tipos de vírus animais. Além disso, o g1 apurou que entre as amostras estavam os vírus H1N1 e H3N2, causadores da gripe tipo A.
Cronologia dos fatos: O desaparecimento das amostras foi notado inicialmente por uma pesquisadora em 13 de fevereiro de 2026; a Unicamp notificou a Polícia Federal em 16 de março e o inquérito foi instaurado oficialmente em 20 de março.
Evidências por câmeras: Registros de câmeras de segurança mostraram Michael Miller saindo do laboratório NB-3 com caixas em horários incomuns no final de fevereiro, o que levou a universidade a apontá-lo como suspeito do furto.
Fraude processual e descarte: Após a PF realizar buscas em sua residência no dia 21 de março, Soledad Miller retornou à Unicamp e descartou parte do material biológico dentro de um dos laboratórios para tentar destruir evidências.
Localização do material: As amostras foram recuperadas pela perícia em três locais distintos: na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) e no Instituto de Biologia. Não havia amostras na residência do casal.
Motivação e risco: A PF descartou a hipótese de terrorismo biológico, indicando que a motivação seria relacionada a pesquisas internas do casal; as autoridades garantem que todas as amostras foram recuperadas e que não houve contaminação externa.
Tipificação penal: A pesquisadora é investigada por crimes como furto qualificado, fraude processual, perigo para a vida ou saúde de outrem e manutenção ou transporte irregular de organismos geneticamente modificados.
Andamento do processo: Soledad Miller responde ao processo em liberdade provisória, sob condições como proibição de acessar os laboratórios envolvidos; paralelamente, a Unicamp instaurou uma sindicância interna para apurar o caso. O marido da professora ainda é investigado pelo furto do material.
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'Caso isolado', diz Unicamp
No domingo (29), a Unicamp divulgou uma nota em que afirmou que o furto de vírus do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada do Instituto de Biologia foi um “caso isolado” e não envolveu organismos geneticamente modificados.
A instituição informou que, ao tomar conhecimento do caso, acionou a Polícia Federal e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que possibilitou a “rápida localização e apreensão dos materiais subtraídos”.
Uma sindicância interna foi instaurada, enquanto a investigação federal apura a motivação do caso e o possível envolvimento de “diferentes pessoas físicas e jurídicas”.
Vírus furtado na Unicamp estava em laboratório com maior nível de biossegurança
Leia o pronunciamento na íntegra:
"Com relação à subtração de materiais de pesquisa do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, classificado com nível de biossegurança 3 (NB-3), a Universidade vem a público esclarecer que:
- Laboratórios NB-3 operam em conformidade com protocolos rígidos de segurança. O episódio ocorrido foi um caso isolado, resultante de circunstâncias atípicas que estão sendo averiguadas no âmbito da investigação policial.
- Ao tomar conhecimento do fato, a Reitoria da Unicamp acionou imediatamente a Polícia Federal (PF) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que possibilitou a rápida localização e apreensão dos materiais subtraídos.
- Não há organismos geneticamente modificados dentre os materiais em questão.
A Universidade também esclarece que:
- A Unicamp é nacionalmente reconhecida por incentivar a formação de empresas de base tecnológica que se dediquem a transformar os resultados de pesquisas realizadas na Universidade em produtos e serviços que beneficiem a sociedade.
- A Incubadora de Empresas da Unicamp (Incamp), sob responsabilidade da Agência de Inovação Inova Unicamp, opera com toda a segurança jurídica necessária, atuando em concordância com a política de inovação da Universidade e o marco legal nacional de inovação. Possui certificação de máxima qualidade no Brasil, CERNE nível 4, expedida pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec). Sua atuação está restrita à capacitação de empreendimentos inovadores, não abrangendo a gestão, supervisão ou execução das atividades técnico-científicas que são conduzidas de forma independente por seus respectivos sócios.
- A empresa associada ao marido da docente suspeita de ter retirado os materiais do já mencionado laboratório sem a devida autorização participa do programa da Incamp, o que lhe permite apenas fazer uso de espaço compartilhado de escritório.
- A motivação da subtração de materiais, bem como o possível envolvimento de diferentes pessoas físicas e jurídicas no caso, estão sob investigação conduzida pelos órgãos federais competentes.
- Uma sindicância foi instaurada na Universidade para averiguação interna.
É importante ressaltar, ainda, que a Unicamp é reconhecida em importantes rankings internacionais como a segunda melhor universidade da América Latina devido à qualidade de sua produção científica, e à excelência e comprometimento de seu corpo docente, de seus funcionários e de seus alunos, assim como pela formação responsável e ética de recursos humanos qualificados.
Reiteramos que a ocorrência em questão foi um caso isolado e, portanto, voltamos a público para reafirmar o nosso compromisso com a missão de promover o conhecimento para uma sociedade democrática, justa e inclusiva, com destaque à excelência no ensino, na pesquisa e na extensão".
Laboratório de Virologia do instituto de Biologia da Unicamp
Estevão Mamédio/g1
Infográfico mostra local de onde amostras de material biológico foram retiradas na Unicamp, e por quais crimes a professora Soledad Palameta Miller vai responder na Justiça
Arte g1
Imagem aérea do campus da Unicamp, em Campinas (SP)
Reprodução/EPTV
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