'Obras fantasmas' com dinheiro do orçamento secreto: PF investiga desvio de verbas no Nordeste

  • 18/01/2026
(Foto: Reprodução)
Fantástico percorre 2.500 quilômetros em 3 estados para descobrir o destino do dinheiro das emendas parlamentares A Operação Overclean, investigação da Polícia Federal que apura o desvio de verbas de emendas parlamentares chegou à 9ª fase na última segunda-feira (12). O alvo foi o deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), o quarto parlamentar investigado na operação. Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão por ordem do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), em imóveis e endereços ligados ao deputado em Brasília e na Bahia. O STF também determinou o bloqueio de R$ 24 milhões de contas ligadas a investigados. O Fantástico percorreu mais de 2.500 km em três estados do Nordeste para descobrir o destino das emendas. A reportagem encontrou obras fantasmas, construtoras que enganaram a população e trabalhadores que levaram calote. A PF conseguiu rastrear o envio de milhões de reais em emendas de Mendonça Júnior para ao menos três municípios da Bahia. Em Boquira, foram R$ 4 milhões. Em Ibipitanga, quase R$ 13 milhões. E em Paratinga, pouco mais de R$ 8 milhões. Em junho de 2025, policiais apreenderam documentos e o celular de Marcelo Gomes, assessor do deputado. O material, obtido pelo Fantástico, inclui várias conversas de Marcelo com o empresário Evandro Baldino. Conversa entre Marcelo Gomes, assessor do deputado Félix Mendonça Júnior, e o empresário Evandro Baldino Reprodução/TV Globo Uma das conversas trata de pagamentos aos prefeitos das três cidades que receberam emendas de Mendonça Júnior: Beto, de Ibipitanga, Marcel, de Paratinga, e Alan, de Boquira. Os três eram prefeitos dos municípios que receberam os valores das emendas. Em uma das mensagens, a pergunta: "Vai ser PIX ou papel?" Evandro responde: "Ibipitanga é PIX. Paratinga é PIX. Estou tentando falar aqui com o Alan pra ver como vai ser o dele". No dia seguinte, ele envia a mensagem "Alan, Boquira, 40 mil" e pergunta se Marcelo conseguiu fazer a transferência. Em outras mensagens, os dois comemoram o recebimento do dinheiro. "Ibipitanga tá cheio de platita", escreveu Marcelo. "Tu conferiu se la platita caiu?", disse Evandro. Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) Reprodução/TV Globo O deputado federal Félix Mendonça Júnior disse que jamais negociou a execução de emendas parlamentares e nunca indicou ou intermediou a contratação de empresas para realizar obras em municípios. O parlamentar afirmou que vem colaborando com as investigações da Polícia Federal e que espera o esclarecimento dos fatos de forma célere. A reportagem não conseguiu localizar as defesas de Marcelo Gomes e Evandro Baldino. Asfalto fantasma na Bahia O Fantástico acompanha a Operação Overclean desde a primeira fase, em dezembro de 2024. Na época, o programa esteve em Campo Formoso, na Bahia, e mostrou a espera pelo asfaltamento de uma estrada. Um ano depois, o asfalto ainda não chegou. Parte do dinheiro para o asfalto fantasma veio de uma emenda de 2021 dentro do orçamento secreto, que não identifica o autor do repasse. Polícia Federal investiga desvio de emendas parlamentares no Nordeste Reprodução/TV Globo O projeto virou um convênio entre a prefeitura de Campo Formoso e a empresa estatal Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales dos São Francisco e Parnaíba). A Codevasf informou que R$ 8 milhões corresponderiam à contrapartida da prefeitura. E que, ao realizar ação de fiscalização, identificou inconsistências que comprometem a continuidade da execução. O prefeito de Campo Formoso é Elmo Nascimento (UNIÃO), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (UNIÃO-BA). O superintendente regional da Codevasf na época era Miled Cussa Filho, indicado por Elmar para o cargo. Miled disse que alertou a prefeitura e os órgãos de controle sobre as irregularidades e que foi demitido da Codevasf por colaborar com as investigações. "Encaminhei para o Ministério Público Federal, CGU [Controladoria-Geral da União], relatando todas as irregularidades dos convênios e aí eu fui demitido", disse Miled. Um relatório da PF menciona que a CGU fez uma auditoria sobre as obras e, a partir da análise de uma planilha de emendas, deduziu que o valor foi enviado pelo deputado Elmar Nascimento. O Fantástico procurou o deputado, que não quis gravar entrevista. Por mensagem, ele negou o envio de emendas para essas obras em Campo Formoso. Calote em trabalhadores O caminhoneiro Jaelson Brito é morador de Campo Formoso e foi contratado para trabalhar na obra. Ficou sem estrada e sem salário. "No início, a empresa pagou o primeiro mês. No segundo mês, a gente trabalhou. Depois, ficamos fazendo as medições e sempre atrasando, atrasando. Passou dois, três meses, aí não recebemos. Eu não recebi. Meu prejuízo ficou em R$ 28 mil", afirmou. O caminhoneiro Jaelson Brito disse que teve prejuízo de R$ 28 mil com o não pagamento de salários de obra em Campo Formoso Reprodução/TV Globo A empresa responsável pela obra era a Allpha Pavimentações. Em dezembro de 2024, enquanto Jaelson tentava reaver o dinheiro perdido, os donos da empreiteira foram presos no aeroporto de Salvador, carregando malas de dinheiro. Segundo o Portal da Transparência, nos últimos quatro anos, a Allpha Pavimentações, recebeu R$ 67 milhões em recursos federais, quase tudo do orçamento secreto. A Allpha e a Codevasf aparecem no centro da Operação Overclean. Segundo a PF, o esquema movimentou R$ 1,4 bilhão em quatro anos. Investigação em Alagoas As investigações também chegaram a Rio Largo (AL), vizinha a Maceió. A cidade tem um histórico de problemas com corrupção, e prefeitos já foram afastados e até presos. Nos últimos seis anos, o município recebeu quase R$ 100 milhões em emendas, principalmente do orçamento secreto. Mas os moradores convivem com problemas crônicos, moradias precárias, falta de saneamento básico e obras inacabadas. Só o Fundo Municipal de Saúde de Rio Largo recebeu quase R$ 64 milhões em emendas. Ainda assim, as unidades básicas ficaram fechadas durante quase um mês na virada de ano. Um vídeo publicado em dezembro de 2024 pelo então prefeito Gilberto Gonçalves (PP) mostra obras na via conhecida como Estrada das Canas. O dinheiro veio de uma emenda de quase R$ 6 milhões pelo deputado Arthur Lira (PP-AL). A pavimentação foi feita, mas o asfalto afundou em vários pontos da via. Pavimentação de estrada em Rio Largo (AL) deixou vários pontos da via afundados Reprodução/TV Globo Arthur Lira disse que falta fazer a remoção de postas de energia e que houve um atraso em uma desapropriação de área privada. Segundo ele, a prefeitura tem mais de R$ 4 milhões reservados para o serviço. Gilberto Gonçalves foi preso em 2022 na Operação Beco da Pecúnia, que identificou desvios em contratos da prefeitura. Na época, o Fantástico mostrou que a propina era distribuída em um beco próximo à prefeitura. Gilberto reassumiu o cargo e terminou o mandato. A população de Estrela de Alagoas (AL) também espera pelo asfalto. O Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), anunciou o asfaltamento de duas estradas rurais a um custo total de R$ 25 milhões. Em uma das vias, só foi feita a terraplanagem. Em outra, o asfalto chegou apenas em um trecho. As obras pararam e nunca mais voltaram após as eleições de 2024. A cidade era governada por Aldo Lira (PP), que aparece em um vídeo agradecendo a Arthur Lira pela obra. Arthur Lira (PP-AL) disse que a responsabilidade sobre a obra é do DNOCS. Arthur Lira (PP-AL) Mário Agra/Câmara dos Deputados Nas duas obras paradas, o órgão contratou a empreiteira Construmaster, que mudou de nome e hoje se chama Vieira Infraestrutura. A empresa também é alvo da operação Fake Road (Estrada Falsa). A PF e a CGU encontraram indícios de fraudes, superfaturamento e desvios, além de serviços mal executados no Ceará e no Rio Grande do Norte. O prejuízo estimado é de R$ 18 milhões. O autor dessas emendas é o deputado federal Robério Monteiro (PDT-CE). Segundo a PF, ele mandou o dinheiro para as cidades cearenses de Itarema, que tem seu filho como prefeito, e Acaraú, onde sua esposa é a prefeita. Robério Monteiro (PDT-CE) repassou emendas para cidades que têm o filho e a esposa como prefeitas Reprodução/TV Globo Ao autorizar a operação Fake Road, o ministro Flávio Dino, do STF, afirmou que, "foi identificado o uso de fotos falsas para comprovar a realização das obras" e que a ação "é uma grave irregularidade que compromete a transparência e a confiabilidade do processo de fiscalização". A decisão menciona informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf): o dono da Construmaster fez transferências financeiras para um irmão do deputado Robério Monteiro, e parte do dinheiro foi repassada ao deputado. O deputado não foi alvo da operação. Ele disse que a obra é de responsabilidade exclusiva do DNOCS e que não há emenda dele nesse projeto, e sim de recurso de uma comissão do Senado, aprovado por vários parlamentares e dentro da legalidade. Sobre a menção ao seu irmão, Robério disse que a transferência diz respeito a relações estritamente comerciais. A Construmaster recebeu R$ 114 milhões em verbas federais entre 2022 e 2025, segundo o Portal da Transparência. Deste valor, foram mais de R$ 36 milhões em emendas, a maior parte do orçamento secreto. Falta de transparência Desde 2020, o uso do orçamento secreto consumiu R$ 38 bilhões dos cofres públicos. O STF proibiu esse instrumento no fim de 2020 devido à falta de transparência e de critérios para o uso do recurso. Com a proibição, parlamentares passaram a turbinar as emendas ligadas às comissões da Câmara e do Senado, que também são criticadas pela falta de transparência. Essas emendas chegaram a R$ 8,6 bilhões em 2025. Com as investigações, a PF quer abrir a caixa preta do orçamento secreto. No centro das operações, estão o DNOCS e a Codevasf, que enfrentam o loteamento de cargos de direção entregues pelo governo federal a políticos em troca de apoio no Congresso. A Codevasf disse que seus recursos orçamentários são executados em estrita observância à lei e às orientações de órgãos de controle. O DNOCS disse que 65% do contrato com a empresa Allpha já foram executados e pagos e que desconhece a comprovação de superfaturamento realizada pela PF. A reportagem não conseguiu contato com a Allpha. Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo. PRAZER, RENATA O podcast 'Prazer, Renata' está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts. Siga, assine e curta o 'Prazer, Renata' na sua plataforma preferida.

FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/01/18/obras-fantasmas-com-dinheiro-do-orcamento-secreto-pf-investiga-desvio-de-verbas-no-nordeste.ghtml


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