O bebê chama, mas ninguém responde: como adultos exaustos e distraídos pelo celular afetam a primeira infância
31/03/2026
(Foto: Reprodução) Como aprendemos a andar? Além de todas as questões motoras envolvidas, há um pressuposto básico para que a criança dê os primeiros passos: confiança. Ela precisa ter a certeza de que alguém estará por perto para segurá-la ou confortá-la se ela se machucar. É uma interação simples, mas essencial para o desenvolvimento infantil.
E são exatamente essas conexões do dia a dia que estão se perdendo:
📱 adultos esquecem que são mais interessantes (e que têm muito mais a ensinar) para bebês e crianças do que as telas;
😫 estresse e cansaço acumulados prejudicam as interações pessoais e reduzem a qualidade delas;
👩🏫 professores de educação infantil sentem-se desmotivados para se dedicar a essas conexões, diante de salários baixos, sobrecarga de trabalho e falta de reconhecimento.
Por isso, Junlei Li, professor da Harvard Graduate School of Education, defende que, para o desenvolvimento de uma sociedade saudável, o foco dos investimentos públicos esteja em políticas que favoreçam as relações — especialmente aquelas que envolvem a primeira infância.
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Dos 0 aos 6 anos, o cérebro forma até 1 milhão de novas conexões neurais por segundo. É a fase de maior plasticidade da vida.
“Além de segurança básica, saúde e alimentação, é a interação que realmente vai ajudar as crianças a se desenvolverem. A lógica, portanto, é que os apoios financeiros sejam direcionados para as famílias e para os professores”, diz, em entrevista ao g1.
“Se você apoia com licença maternidade e paternidade, por exemplo, está ajudando nas interações que uma criança receberá. Se investe no bem-estar e no desenvolvimento dos professores, estimula que eles estejam mais presentes. Nenhum recurso visível, como um prédio mais moderno, vai substituir a importância de uma pessoa verdadeiramente envolvida.”
Que tipo de interação deve acontecer — e por que o celular atrapalha tanto?
Estresse e falta de apoio para pais, mães e professores diminuem qualidade nas interações com as crianças
Reprodução/August de Richelieu
O professor Li lista quatro características essenciais para uma interação de qualidade:
1- Conexão: Percepção de quão sintonizadas as pessoas estão durante uma interação. São três estados principais:
distanciamento ou hostilidade
desencontro emocional
Modo Z (o ideal): sintonização mútua e presença compartilhada
Transitar entre esses estados é normal. O verdadeiro motor do desenvolvimento não é a conexão constante, mas sim o ciclo de "ruptura e reparo" — a habilidade de sair do "desencontro" e voltar para a "sintonia".
Exemplo Prático: Uma criança tenta mostrar um desenho para o pai.
⭐No Modo Z (Conexão): O pai abaixa, olha nos olhos da criança e comenta sobre as cores. Há uma "faísca" de reconhecimento mútuo.
📲O impacto do celular: O pai olha o desenho por cima do aparelho, balança a cabeça e diz "legal" sem desviar os olhos da tela. A criança sente que, embora o pai esteja fisicamente presente, ele está emocionalmente ausente. Isso gera uma ruptura da conexão.
2- Reciprocidade: Equilíbrio de papéis e trocas entre os participantes. Ela flutua entre diferentes níveis de engajamento:
Unilateralidade: Interação direcionada por apenas um dos lados
Parceria Equilibrada (ideal): Uma troca recíproca tão fluida que se torna difícil distinguir quem lidera e quem segue
Li ressalta que as crianças devem experienciar diversos modos de interação. Momentos direcionados por adultos não são necessariamente negativos.
Exemplo Prático: Uma professora e um aluno montam um quebra-cabeça.
⭐No Modo Z (Parceria): Eles alternam as peças; um espera a vez do outro de forma fluida.
📲O impacto do celular: A professora interrompe a atividade para responder uma mensagem rápida. A criança para de tentar colaborar e passa apenas a esperar (conformidade) ou desiste da atividade por frustração (resistência).
3- Inclusão: Observação ativa de quem participa das atividades, com atenção especial aos "menores do grupo" ou àqueles menos propensos ao engajamento.
Exemplo Prático: Na hora do recreio ou de uma brincadeira entre os primos, uma criança está mais tímida, sozinha em um canto.
⭐No Modo Z (Inclusão): O adulto percebe esse isolamento e convida essa criança para ajudar a organizar o jogo, integrando-a aos colegas.
📲O impacto do celular: Se já for dado um celular ou um tablet para quem está sozinho, as chances de esse aluno participar do grupo diminuem. A tela capta toda a atenção.
4- Oportunidade de Crescimento: Equilíbrio entre desafio e apoio, auxiliando no desenvolvimento de competências “acadêmicas” e socioemocionais.
O estímulo, às vezes, precisa ir além da zona de conforto: é como se o adulto oferecesse um andaime para a criança subir a um patamar mais alto. Esse suporte pode ser retirado conforme a autonomia cresce.
Exemplo Prático: Uma criança aprendendo a amarrar o tênis.
⭐No Modo Z (Crescimento): O adulto observa a dificuldade e oferece apenas uma dica ("tente fazer a orelhinha do coelho com o cadarço"), permitindo que a criança consiga cumprir a tarefa sozinha.
📲O impacto do celular: Para "ganhar tempo" e voltar logo para o celular, o adulto faz a tarefa pela criança (retirando o desafio) ou ignora o pedido de ajuda (deixando a tarefa inalcançável). A oportunidade de crescimento é desperdiçada.
Pesquisadores utilizam o termo "tecnoferência" para descrever como pequenas interrupções digitais (um olhar rápido para uma notificação ou uma resposta no WhatsApp) fragmentam a atenção compartilhada. O problema não é o uso do celular em si, mas como ele quebra o ritmo do desenvolvimento cerebral.
🎾O que as crianças aprendem com essas interações?
Ler antes de dormir é uma opção para acalmar e ajudar a elaborar fantasias
Marcelo Brandt/G1
Especialistas do Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade de Harvard comparam essas interações a um jogo de tênis ou vôlei: o bebê "saca" (com um balbucio, um gesto ou um choro) e o adulto "devolve" a bola (com um olhar, uma fala ou um carinho).
Esse vaivém constrói a “arquitetura” do cérebro. Quando o adulto não "devolve a bola" — seja por distração com o celular ou por estresse —, os circuitos neurais que deveriam ser formados naquele momento ficam enfraquecidos.
Em casa, a importância da criação do vínculo e das pequenas interações interferem nos seguintes aspectos:
Quando o bebê faz um som e alguém responde, aponta para um objeto e a mãe o nomeia, chora e recebe colo, busca o olhar e encontra o de alguém conhecido, ele aprende algo fundamental: que vale a pena tentar se comunicar. Aos poucos, entende que suas ações produzem respostas — e que o mundo ao redor pode ser previsível, compreensível e seguro. É assim que começam a se desenvolver a linguagem, o vínculo e a capacidade de se relacionar.
Se a criança percebe que sempre há alguém por perto que está emocionalmente presente, ela ganha confiança para explorar, testar uma nova tarefa, errar e tentar de novo.
No momento de atenção compartilhada, quando adulto e bebê estão focados no mesmo brinquedo ou no mesmo livro, o pequeno vai ampliar o vocabulário, ficar mais curioso, perceber intenções e desenvolver o foco.
Na creche e na pré-escola, os alunos aprendem, na interação com pares ou com professores, a:
esperar a própria vez;
resolver conflitos;
nomear emoções;
entrar em brincadeiras;
tolerar frustração;
confiar em outras pessoas.
Ou seja: se o professor estiver exausto, desestimulado e sobrecarregado, sem políticas de apoio constante, não é só “qualidade pedagógica” que cairá: as relações da comunidade escolar perderão qualidade.
Culpar os adultos não é o caminho
Especialistas recomendam moderação no uso das tecnologias
Marcelo Brandt/G1
Para onde está indo a atenção que não é direcionada aos bebês e às crianças?
1- Boa parte do tempo dos adultos é voltada para obrigações de trabalho. O expediente pode até ter acabado, mas as mensagens continuam chegando, a preocupação com a tarefa do dia seguinte não sai da cabeça…
Os professores, por exemplo, costumam dar aula em mais de uma escola para garantir uma renda mínima. No tempo livre, preparam atividades e planejam a dinâmica do dia seguinte. Nem sempre têm à disposição os recursos de que precisam para trabalhar.
2- Na vida pessoal, pais, mães e docentes estão estressados, sobrecarregados e tensos com problemas financeiros.
O que aparece como a solução mais imediata? O celular e seu aparente alívio do estresse.
“O que precisamos perguntar, em vez de culpar os adultos, é: por que eles estão estressados? Pais e mães estressados não têm confiança neles próprios — acabam achando que o tablet terá muito mais a oferecer ao bebê ou à criança do que eles mesmos”, diz Li.
“Por isso, precisamos ajudar a diminuir esse esgotamento. A cada investimento, as autoridades deveriam pensar: isso vai ajudar na interação dos adultos com as crianças? Investir na saúde e na segurança, por exemplo, pode aliviar parte do estresse. Investir na formação continuada dos professores, também.”
Que tipos de investimento podem ser benéficos?
Juliana Prates, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia, analisa como esses princípios se aplicariam exclusivamente ao contexto brasileiro.
Ela diz que jornadas de trabalho exaustivas, por exemplo, reduzem o tempo e a qualidade das interações entre cuidadores e crianças pequenas. Colocar a primeira infância no centro das políticas públicas, segundo a especialista, exige uma rede de apoio mais ampla, com licença-maternidade e paternidade garantidas, número adequado de educadores nos espaços de cuidado, cidades mais acessíveis para as famílias e medidas de proteção social.
“A agenda de cuidado com as crianças implica não só cuidar delas, mas cuidar de quem cuida delas", afirma Prates.
Como resume Li, de Harvard, nada substitui o valor de um adulto emocionalmente disponível. Apoiar quem cuida é garantir que o "jogo de tênis" (um “saca” e o outro “recebe”) do desenvolvimento infantil continue acontecendo.
“O recurso mais importante que as crianças têm é aquela pessoa ao lado delas”.
Professor Junlei Li, de Harvard, defende a importância das relações humanas para o desenvolvimento da primeira infância
Divulgação/Fundação Maria Cecília Souto Vidigal