Lançados com uma força 20 vezes maior que a gravidade: os efeitos de uma ejeção de um caça no corpo humano

  • 05/03/2026
(Foto: Reprodução)
Um caça decola da base aérea da RAF em Akrotiri após dois ataques com drones relatados perto de Limassol em 2 de março de 2026. AFP Três caças F-15E dos EUA foram abatidos sobre o Kuwait na madrugada de segunda-feira (2) em um aparente incidente de fogo amigo durante a Operação Epic Fury, a atual campanha conjunta dos EUA e Israel contra o Irã. Todos os seis tripulantes se ejetaram com segurança e estão em condição estável – mas “segurança” é um termo relativo quando se é ejetado de uma aeronave atingida viajando em velocidade de combate. A decisão de ejetar não é tomada levianamente, mas muitas vezes há apenas alguns segundos para tomá-la – uma decisão que desencadeia uma série de eventos que submetem o corpo a algumas das maiores forças G (o efeito da aceleração no corpo) que um ser humano pode suportar. Esperar demais pode ser fatal. Estudos sugerem que demoras estão associadas a taxas de mortalidade de até 23%. VEJA TAMBÉM: Jato dos EUA cai no Kuwait e pilotos ejetam Os pilotos de caça podem suportar até 9 G com a ajuda de equipamentos anti-G, mas mesmo esses equipamentos só podem ser usados por um curto período de tempo. A ejeção de um caça a jato gera forças muito além disso. ➡️Para contextualizar as forças envolvidas, a maioria das pessoas perde a consciência em torno de 5G, porque o efeito da gravidade supera a capacidade do coração de bombear sangue para o cérebro. O assento é lançado para fora da aeronave e, em seguida, impulsionado para cima para garantir altitude suficiente para que o paraquedas se abra com segurança, acelerando o ocupante a até 200 m por segundo ao quadrado — cerca de 20 vezes a aceleração da força da gravidade na Terra. Quando usados dentro dos parâmetros recomendados — velocidade, altitude e atitude (o ângulo ou posição da aeronave no ar) corretas —, os assentos ejetáveis modernos apresentam uma taxa de sobrevivência superior a 95%. Os assentos ejetores modernos são conhecidos como “zero-zero”, o que significa que podem ser usados tecnicamente mesmo que a aeronave esteja parada no solo. Mas as ejeções a baixa altitude, abaixo de 500 pés (152 m), reduzem a taxa de sobrevivência para cerca de 50%. Força Aérea Brasileira começa a usar caças de origem sueca Gripen na defesa da capital federal A ejeção é apenas o começo Sobreviver à ejeção não é garantia de sair ileso. Uma grande revisão das evidências descobriu que lesões graves ocorrem em pouco menos de 30% das ejeções, afetando a coluna vertebral, os membros, a cabeça e o tórax. As fraturas na coluna vertebral são as mais comuns, ocorrendo em até 42% das ejeções, com as vértebras T12 e L1 (a vértebra mais baixa da região média das costas e a vértebra mais alta da região lombar) representando quase 40% das fraturas da coluna vertebral em um grupo de tripulantes alemães. Os discos amortecedores entre as vértebras absorvem as mesmas forças e podem comprimir-se acentuadamente, de forma semelhante à maneira como a coluna vertebral se comprime naturalmente durante o dia, fazendo com que a maioria das pessoas perca até 20 mm de altura diária normal. A direção da ejeção também é importante. Em um voo normal, as forças G positivas pressionam o piloto contra o assento, fazendo com que o sangue se desloque para a parte inferior do corpo. A força G negativa ocorre quando a aeronave acelera para baixo em relação ao piloto, como durante uma descida ou ao voar de cabeça para baixo, levando o sangue para a cabeça. A ejeção nessas condições tem sido associada a lesões oculares, provavelmente causadas por mudanças rápidas de pressão nos delicados vasos sanguíneos dos olhos, e pode resultar em cegueira temporária que dura meses. Uma vez fora da aeronave, a tripulação é atingida por uma “rajada de vento” – uma violenta corrente de ar causada pela velocidade do jato. Em algumas circunstâncias, isso pode atingir 600 nós, e há casos registrados de ejeção acima da velocidade do som. A essas velocidades, máscaras e equipamentos podem ser arrancados – um problema grave em altitude, onde máscaras de oxigênio são essenciais. Sua perda pode provocar hipóxia – falta de oxigênio que afeta o raciocínio e a tomada de decisões –, reduzindo a capacidade dos tripulantes de gerenciar sua própria sobrevivência. A alta altitude também traz o risco de hipotermia e queimaduras pelo frio, dependendo da localização e das condições. LEIA MAIS: É #FAKE que vídeo mostre avião militar dos EUA fugindo de mísseis do Irã; trata-se de simulação por computador Jatos dos EUA são abatidos por engano no Kuwait durante combate, diz Washington Fragmentos da cabine podem ficar incrustados em tecidos moles expostos – o pescoço é particularmente vulnerável –, enquanto em casos mais graves, peças da aeronave ou estilhaços de mísseis podem causar traumas penetrantes no fígado, pulmões e outras estruturas, exigindo cirurgia de emergência. Se o paraquedas for acionado com sucesso, o choque da abertura – a desaceleração repentina à medida que a copa se enche – pode, por si só, quebrar costelas e deslocar ombros, bem como causar lesões no períneo (a área entre as pernas) devido ao arnês. Cerca de 49% das lesões no paraquedismo ocorrem no pouso, sendo que os pés sofrem um terço de todas as lesões. Para aqueles que pousam em árvores em vez de no solo, o perigo não termina aí. Ficar suspenso num arnês por qualquer período de tempo acarreta o risco de trauma de suspensão – às vezes chamado de “síndrome de suspensão por arnês” –, em que o sangue se acumula nas pernas e tem dificuldade para retornar ao coração e ao cérebro, levando à inconsciência e, em alguns casos, à morte. O tempo de recuperação para aqueles que sobrevivem varia muito. Estudos mostram que o retorno às funções de voo pode levar de uma semana a seis meses, dependendo da gravidade dos ferimentos sofridos. A ejeção continua sendo muito mais segura do que tentar sobreviver a uma queda. Para os seis tripulantes do F-15E em recuperação no Kuwait, sobreviver à ejeção foi apenas o primeiro desafio. *Adam Taylor é professor de Anatomia na Lancaster University. **Este texto foi publicado originalmente no site da The Conversation Brasil.

FONTE: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/03/05/lancados-com-uma-forca-20-vezes-maior-que-a-gravidade-os-efeitos-de-uma-ejecao-de-um-caca-no-corpo-humano.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 5

top1
1. Don't Let Me Down

The Beatles

top2
2. Epitaph

King Crimson

top3
3. Feeling Good

Nina Simone

top4
4. Somebody To Love

Queen

top5
5. Lady Laura

Roberto Carlos

Anunciantes