Folia de Reis: como celebração religiosa e cultural atravessa gerações, em Goiás

  • 15/02/2026
(Foto: Reprodução)
Folia de Reis: como celebração religiosa e cultural atravessa gerações Uma tradição que remonta à peregrinação dos três Reis Magos em busca do Menino Jesus, guiados pela Estrela do Oriente, a Folia de Reis é carregada de fé, tradição e cultura. Veja como essa expressão de fé, que começou junto com as primeiras vilas de Goiás, resiste ao crescimento urbano, reunindo foliões e famílias em torno das orações e músicas típicas. Segundo o professor Bento Fleury, as folias começavam depois do Natal e terminava no dia 6, dia que a Igreja Católica dedica aos Santos Reis. Ele explica que antigamente a folia peregrinava pelas ruas indo de casa em casa porque era uma festa do conhecimento das pessoas, dos grupos e das pequenas comunidades. "Essa tradição, ela foi sendo mantida, principalmente na zona rural, com o que se chama de giro. O giro urbano e o giro rural", explica. ✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp Foliões O motorista Geferson Cardoso de Jesus, de 47 anos, começou a participar das folias com um ano de vida em Brasília; ele contou que agora se mudou para Goiás e continua a tradição. Este ano, o devoto de Santos Reis foi responsável por organizar os giros da folia na cidade de Claudinápolis, no oeste do estado. "Essa tradição começou na minha família há 46 anos, através de um tio meu. Ele era de Minas Gerais, aí ele girava a folia lá", conta. Geferson disse que o tio fez um voto para Santos Reis com intenção de cuidar da folia por sete anos, mas a missão já tem mais de 40. Foi esse tio que levou a folia de Minas para Brasília, onde o Geferson nasceu. O pioneiro faleceu em 2025, mas a tradição se manteve viva com os primos de Geferson e outros familiares. Folia do Castilho administrada pelo Júlio César Arquivo pessoal/Júlio César Outro folião de Santos Reis é Júlio César Souza Castro, de 23 anos, que trabalha no Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade. Ele disse ao g1 que há quatro anos organiza uma folia na cidade de Itapaci, no norte de Goiás, na região de Ceres e Uruaçu. O grupo conta com 50 foliões, sendo muitos deles jovens que se interessam em manter a tradição viva. Segundo Júlio César, a Folia do Castilho começou na sua família há mais de 70 anos com um tio distante, que depois passou para seu avô e permanece até hoje com as mesmas raízes do início, inclusive mantendo os giros apenas na zona rural, sem levar para a cidade. "O Bendito da mesa, que a gente nunca mudou, continua o mesmo original de toda a vida, conforme eles sempre cantaram. Sempre a reza do terço também. É a nossa missão de evangelização. Sempre tivemos Deus à frente", disse. Júlio César reforça que a folia é católica; remontam a essa expressão de fé com músicas voltadas à Bíblia, a Jesus Cristo, ao Menino Jesus, a Nossa Senhora, São José e aos Três Reis também. "Que na casa onde a gente chegar com aquela bandeira, onde tiver tristeza, que venha a alegria; onde tiver o mal, que ele caia por terra e Jesus habite ali. E que, por onde a gente passar, que Deus vá fazendo a obra dele", explica. Juventude Geferson acredita que é uma tradição difícil de acabar porque, pelo menos em sua família, está bem enraizada, e o comando das folias está sendo passado para pessoas mais jovens. A devoção a Santos Reis também é citada por ele como ponto para manter as folias acontecendo. "Eu sou muito devoto a Santos Reis por ser nascido em janeiro. O que depender de mim, a de Goiás não acaba não. E a lá de Brasília, dos meus primos também, tenho certeza que eles não deixam acabar", afirmou. O folião Júlio César também vê que a tradição da Folia de Reis não tem risco de desaparecer. Ele, que também é jovem, conta que, desde que assumiu a organização dos giros, levou muitos jovens para o grupo. "E lá, por ser uma cidade muito rica com Folia de Reis, os jovens se interessam. Então eu também fui lá e arregimentei esses jovens para a Folia do Castilho, para reavivar, para renovar. Então a gente ainda consegue passar a tradição para os mais novos e, com fé em Deus, enquanto eu tiver vida a gente vai tocando e tudo vai acontecendo", afirma. Família Altar para receber a Folia de Reis montado na casa da Terezinha Naves e Danilo Lobo Arquivo pessoal/Terezinha A família de Terezinha Naves e Danilo Lobo, de Claudinápolis, no oeste do estado, recebe o chamado pouso da folia, onde os foliões se reúnem para fazer a reza do terço, entoar orações em forma de cânticos e depois jantar. Segundo a Terezinha, são mais de 300 pessoas reunidas na janta e no café da manhã do dia seguinte. Momento que para ela é de grande satisfação e renovação da fé, que surgiu com sua mãe, dona Joana. "Minha mãe era muito devota de Santos Reis. Então acho que isso aí vem desde sempre. Aquela devoção, o gostar de receber, de preparar, de fazer as coisas. Eu me sinto muito bem, muito grata", contou. Terezinha conta que a preparação começa com a comida que será servida aos foliões, o altar (que geralmente é feito na parte externa da casa) e a espera pela chegada da folia. A entrada acontece com as músicas, depois a reza do terço, e por fim vão para a mesa, onde cantam abençoando a comida e agradecendo. A bandeira símbolo da folia passa a noite na casa da família. A devota descreve o sentimento de receber a Folia de Reis em sua casa: "Eu sinto que quando você espera aquela visita muito importante que vem na sua casa, que aquilo ali vai ser uma transformação, então Santos Reis na minha vida é uma transformação, é um ato de fé, ali eu sinto a presença do Espírito Santo na minha casa. Minha fé cada dia renova mais é muito gratificante", testemunhou Terezinha. Tradição Bento conta que a tradição das folias é mantida com mais força na zona rural por causa da raiz caipira. "Na cidade essa tradição já perdeu muito o viço [força] e até mesmo a forma de fazer o giro", afirmou. Para o professor, um dos motivos da perda de força dentro das cidades se dá pelo crescimento urbano e isolamento das pessoas, além do crescimento de evangélicos que não comungam dessa tradição Católica. "Eles peregrinam pelas ruas, antigamente era de casa em casa. Agora a maioria das casas as pessoas são evangélicas e não aceita a bandeira. Para eles era uma forma de abençoar a casa, a bandeira passava por todos os cômodos da casa e muitas vezes fazia-se o pouso da folia, ou o almoço do folião, ou a janta do folião. Dividia-se as casas onde isso haveria de acontecer. Hoje isso é bem mais complicado", conta. Trindade De acordo com Bento Fleury, em Trindade, na Região Metropolitana de Goiânia, está uma das únicas igrejas dedicada aos Santos Reis no estado de Goiás. Com arquitetura em formato de coroa, é nela que culmina com a apresentação de todos os giros urbanos e rurais. "Eles não precisam de uma igreja, eles entregam a folia em qualquer igreja, ou seja, na matriz, na igreja da cidade. Então essa tradição das folias remontam ao período do povoamento do estado, dada a tradição católica que acontece com a fundação dessas pequenas vilas que geralmente eram os fazendeiros que doavam o terreno para a construção das primeiras capelas", conta o professor. Canto do presépio Bento Fleury lembra também que havia os 'cantos de presépio' quando o giro da folia passava nas casas e cantavam para os presépios feitos pelas famílias. Um costume brasileiro que desapareceu sendo substituído pelas árvores de Natal, disse o professor. "Era uma bela tradição que desapareceu completamente, porque as pessoas hoje fazem árvore de Natal. O presépio é a tradição brasileira e a árvore de Natal é importada. Nós não temos neve, a árvore combina com o frio e com a neve. A nossa tradição era o presépio", pontua. De acordo com o professor, as pessoas se empenhavam em fazer os presépios de forma muito artística. O giro da folia, urbano e rural que mantinha tradição viva e que hoje desapareceu. Estrutura da Folia Embaixadores: são os que falam o verso e cantam. O embaixador tem a missão de se deixar ser guiado pelo Espírito Santo para viver esse momento em cada casa. Vozes: as vozes que respondem; primeira, segunda, terceira, a quarta e a quinta voz. Cada um, no seu momento, faz a sua voz, que no final dá resposta afinada para o morador da casa. Caixeiros e pandeiristas: caixeiros e pandeiristas são aqueles que tocam o tambor e os pandeiros. Muita gente não conhece, mas o nome se chama caixa. Palhaços: são os homens que colocam máscara, se encapuzam, usam uma roupa diferente. Eles fazem também a guarda da bandeira, dos foliões, a organização e também a alegria do público, principalmente das crianças. Foliões de apoio: são foliões que às vezes não cantam, não tocam, mas eles têm o carro deles para dar apoio; carregam folião, instrumento e ajudam no que for preciso. 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias de Goiás

FONTE: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/02/15/folia-de-reis-como-celebracao-religiosa-e-cultural-atravessa-geracoes-em-goias.ghtml


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