Distribuidora investigada por ligação com PCC tem contrato de R$ 168,8 milhões para abastecer frota da PM do RJ

  • 26/06/2026
(Foto: Reprodução)
Atualmente, a PM do Rio tem cerca de 5 mil veículos; automóveis são abastecidos por empresa ligada ao crime organizado Divulgação A Rede Sol Fuel Distribuidora, empresa alvo de buscas na Operação Carbono Oculto, que investiga a estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC), mantém um contrato milionário com o governo do Rio de Janeiro para abastecimento da frota da Polícia Militar. Quase 1 ano após a operação que movimentou o mercado financeiro de São Paulo, na Avenida Faria Lima, e depois de o g1 questionar a PM sobre o motivo de a corporação ainda manter contrato com uma empresa investigada por ligação com o crime organizado, a corporação disse que o contrato é legal, mas que vai fazer uma nova licitação para o abastecimento das viaturas. (Confira nota na íntegra no final da reportagem). O Palácio Guanabara não quis comentar os questionamentos da reportagem. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Agora no g1 O contrato de R$ 168 milhões com a distribuidora foi assinado em março de 2025, na gestão do então secretário Marcelo de Menezes Nogueira, e vale até 2027. No começo deste ano, Menezes deixou o posto para se candidatar a deputado estadual. Pelo contrato, a empresa deve fornecer 32 milhões de litros de gasolina e mais de 4 milhões de litros de diesel S10, totalizando quase 37 milhões de litros de combustíveis para os postos internos da corporação. A gasolina representa R$ 147,8 milhões, enquanto o diesel responde por R$ 20,9 milhões. O contrato não especifica quantos veículos ou viaturas serão abastecidos. Atualmente, a corporação possui cerca de 5 mil veículos. Segundo o edital, o objeto prevê o fornecimento de combustíveis para toda a frota atendida pelos 70 postos internos da PM, nos batalhões, com sistema de gerenciamento e controle de abastecimento sem intervenção humana. Origem do dinheiro Desde que foi assinado, ainda na gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL), o acordo passou por pelo menos 3 alterações para incluir novas fontes de recursos orçamentários — ou seja, de onde viria o dinheiro para o contrato. Em julho de 2025, foram acrescentados R$ 456 mil provenientes de um convênio entre a PM e a Prefeitura de Barra do Piraí. Em outubro de 2025, outra alteração incluiu R$ 8,49 milhões de taxas destinadas ao Fundo Especial da PM. Já em novembro de 2025, uma 3ªalteração acrescentou R$ 1,77 milhão em recursos do próprio Fundo Especial da PM. A Rede Sol Fuel Distribuidora é investigada por ligação com o PCC Divulgação Além dos apostilamentos financeiros, a Secretaria de Polícia Militar firmou um termo aditivo com a Rede Sol para prorrogar o prazo de instalação de equipamentos fornecidos em comodato e remanejar dois tanques de combustível entre batalhões. O contrato também prevê a possibilidade de prorrogação sucessiva, podendo alcançar até 10 anos de duração. De acordo com o Ministério Público de São Paulo, a Rede Sol é uma das empresas cujas notas comerciais foram adquiridas pelo Mabruk II Fundo de Investimento, no valor de R$ 30 milhões. O fundo é um dos 40 investigados pela Receita Federal como financiadores das aquisições do PCC no mercado de combustíveis. A operação foi apontada pelo MP como “instrumentalização da lavagem de capitais”. Distribuidora de combustíveis Rede Sol tem contrato milionário para abastecer as viaturas da PM do RJ Divulgação Gasolina batizada Meses antes, em maio do ano passado, o 38º BPM (Três Rios) identificou irregularidades no combustível fornecido pela Rede Sol. O caso resultou na abertura de um processo judicial. Na ocasião, um policial militar flagrou e apreendeu um caminhão da distribuidora que transportava gasolina com 37% de etanol anidro — índice 10 pontos percentuais acima do limite legal de 27% estabelecido pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). A irregularidade foi confirmada por laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), da Polícia Civil, encaminhado à 108ª DP (Três Rios). O processo tramita sob sigilo na 2ª Vara da Comarca de Três Rios, que abrange também Areal e Levy Gasparian. Segundo o ex-secretário da Polícia Militar, a empresa foi notificada e multada em mais de R$ 1 milhão. Além disso, de acordo com Menezes, a Rede Sol foi proibida de participar de licitações no município de Três Rios pelo período de um ano. Contrato rescindido com prefeitura No começo do ano, a Prefeitura do Rio decidiu suspender a contratação da empresa Rede Sol, uma das vencedoras da licitação para fornecimento de diesel aos mais de 700 ônibus articulados da estatal Mobi-Rio, até a conclusão das investigações da Operação Carbono Oculto. A empresa Vibra Energia foi declarada vencedora, mas a Rede Sol poderia ser acionada como fornecedora em caso de problemas da primeira colocada para prestar o serviço. O resultado do pregão eletrônico habilitou a Rede Sol na condição de “empresa redundante”, capacitada para fornecer o equivalente a R$ 68,2 milhões em combustível. Mas pela lei das licitações, a Rede Sol só atenderia à Mobi-Rio caso ocorresse alguma falha no abastecimento de combustível pela Vibra Energia ou um aumento imprevisto de demanda. O que dizem os citados O ex-governador Cláudio Castro e o ex-secretário da PM, Marcelo Menezes Divulgação Procurado pela reportagem, o ex-governador Cláudio Castro afirmou que a responsabilidade pelo pregão cabe ao então secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes. Castro disse ainda que não irá comentar o caso. Por sua vez, o ex-secretário da Polícia Militar afirmou que o contrato foi firmado por meio de pregão eletrônico, o que permitiu a participação de outras empresas. Ele ressaltou que a Rede Sol tinha a documentação em dia, “não houve direcionamento” nem interferência para favorecer a vencedora da licitação. Ainda segundo Menezes, mesmo após a Operação Carbono Oculto, “não havia fundamento para romper um contrato essencial para o funcionamento” da instituição. O ex-secretário acrescentou que a empresa Rede Sol fornece combustível para diversos órgãos públicos, como a Presidência da República, o Exército e a Marinha, e declarou que está “tranquilo”, destacando que “não poderia estabelecer uma pré-condenação”. O ex-secretário também enviou uma nota. Veja na íntegra no final da reportagem. A PM afirmou que a contratação é legal e informou que a empresa cumpriu todas as exigências previstas no edital e na legislação. Segundo a PM, a contratação ocorreu antes da divulgação de informações sobre investigações envolvendo a empresa e, à época, não havia elementos que impedissem a formalização do acordo. Um dos postos de abastecimento da PM Reprodução Mas, para não pôr em risco à continuidade do serviço, a corporação tem em curso uma nova licitação para garantir o abastecimento dos veículos da corporação. A PM não respondeu sobre valores já pagos, volume entregue, eventuais penalidades aplicadas ou se a empresa continua abastecendo normalmente a frota. A reportagem procurou a Rede Sol, que, até a publicação desta reportagem, não havia se manifestado. À época da Operação Carbono Oculto, a empresa informou estar à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos. Disse ainda que repudia qualquer ilação a respeito de ligações com empresas, fundos ou pessoas vinculadas a atividades ilegais. 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop. Atualmente, PM tem cerca de 5 mil veículos Divulgação Nota da Polícia Militar “A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro informa que o contrato com a referida empresa - nº 030/2025 - foi celebrado em abril de 2025, após regular procedimento licitatório, no qual foram observadas as exigências previstas no edital e na legislação em vigor. O contrato, portanto, foi formalizado antes das informações divulgadas a respeito de investigações envolvendo a empresa. Além de preencher todas as exigências previstas no edital e apresentar a melhor proposta, não havia nos autos elemento que pudesse impedir a contratação. A Corporação informa, ainda, que mantém fiscalização permanente sobre a execução contratual e adota as medidas cabíveis diante de eventuais descumprimentos, inclusive com a instauração de processos administrativos e aplicação de sanções quando constatadas irregularidades. Em complemento à resposta anterior relativa ao contrato, ainda em vigor, com a referida empresa, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado acrescenta que, para não pôr em risco à continuidade do serviço, a Corporação adota medidas de planejamento e contingência voltadas à sua preservação, inclusive com novo procedimento licitatório em curso para garantir o abastecimento.” Nota do coronel Marcelo Menezes “A contratação mencionada decorreu de procedimento licitatório realizado por meio de pregão eletrônico, modalidade em que qualquer empresa que atenda aos requisitos previstos em edital pode participar em igualdade de condições. À época da contratação, a empresa vencedora encontrava-se regularmente habilitada, apresentando a documentação e as certidões exigidas pela legislação aplicável, inexistindo impedimento jurídico que inviabilizasse sua contratação. Todo o procedimento administrativo foi conduzido pelas áreas técnicas competentes da Polícia Militar, observando os critérios objetivos estabelecidos no edital e na legislação de licitações, tendo sido declarada vencedora a proposta considerada mais vantajosa para a Administração Pública. Eventuais fatos ou investigações divulgados posteriormente não integravam o cenário jurídico existente no momento da contratação e, por essa razão, não poderiam ser considerados durante o processo licitatório. Quanto aos demais desdobramentos relacionados à execução contratual ou às medidas administrativas eventualmente adotadas após o encerramento da gestão, trata-se de matéria cuja condução compete aos atuais órgãos responsáveis. Permaneço, como sempre estive, à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos sobre os atos praticados durante minha gestão, reafirmando o compromisso com a legalidade, a transparência e o respeito às instituições.”

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/06/26/licitacao-combustiveis-policia-militar-rj.ghtml


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