De namoro em lar para idosos a casamento na festa junina: casal na terceira idade completa 10 anos de união em Ribeirão Preto, SP
10/06/2026
(Foto: Reprodução) Casal celebra 10 anos de união após história de amor em lar para idosos em Ribeirão Preto
Um amor que nasceu entre as salas de convivência e os corredores de uma instituição de longa permanência para idosos (ILPI) em Ribeirão Preto (SP) desafia o tempo e serve de inspiração neste Dia dos Namorados. A história de Benedito Ferreira da Silva, de 81 anos, e Terezinha Auxiliadora da Conceição, de 79 anos, completa uma década em 2026.
Os dois se conheceram na Casa do Vovô. O romance evoluiu de olhares tímidos na sala de estar para um casamento oficializado durante uma festa junina da instituição, em 2016, com direito a alianças, vestido de noiva e a montagem de um quarto para o casal dentro do próprio asilo (veja mais abaixo).
"Nós pegamos um amor", diz seu Dito, como é conhecido, cheio de alegria.
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Dito e Terezinha se conheceram e se casaram na Casa do Vovô, em Ribeirão Preto (SP)
Murilo Corazza/g1
A oficialização da união contou com o apoio de funcionários e da direção do local, que transformou a brincadeira tradicional de São João em uma celebração real. Atualmente, os idosos mantêm a rotina de companheirismo e cumplicidade na casa de repouso.
Eles são pessoas idosas, então já trazem essa responsabilidade do amor respeitoso, um carinho e admiração acima de tudo. É muito além de qualquer relação em si, porque o respeito permanece sempre.
O início do romance
Seu Dito chegou à instituição em junho de 2011, após viver em situação de rua e perder o contato com a família. Dois anos depois, em julho de 2013, Terezinha, a Tetê, foi admitida no local. O primeiro contato marcante aconteceu quando ela foi ao salão da entidade para cuidar das unhas.
"Conheci ela lá embaixo. Eu já estava aqui quando ela chegou. Ela morava lá embaixo e aí eu vi ela no salão. Ela foi fazer a unha e aí a outra [uma amiga deles da instituição] falou 'vai, chega junto'. Aí eu peguei junto e acabou", relembra.
Apesar da timidez de Tetê, o sentimento foi recíproco. O companheiro lembra que, no começo, a namorada demonstrava uma personalidade forte. "Era muito nervosa. Mexeu com ela, ela ficava brava", recorda.
Dito e Tetê ao lado da madrinha de casamento e vice-presidente da Casa do Vovô, Ana Paula de Oliveira, em Ribeirão Preto, SP
Murilo Corazza/g1
Casamento de festa junina pra valer
O relacionamento ganhou força na praça e nas áreas comuns da Casa do Vovô. A aproximação chamou a atenção dos demais moradores e dos funcionários, que decidiram conversar com o casal para entender as intenções.
A oportunidade de oficializar a união surgiu com a proximidade da festa junina da instituição, em 2016. A equipe pensou inicialmente que se trataria apenas de uma brincadeira simbólica, mas os namorados levaram a sério.
A vice-presidente e enfermeira da instituição, Ana Paula de Oliveira, lembra bem da surpresa quando percebeu a seriedade do pedido.
"Ela começou a me perguntar do vestido de noiva, ele também perguntando de aliança, e aí foi tomando uma proporção que a gente entendeu que era uma coisa séria. Não era só um casamento de festa junina", conta Ana Paula.
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A partir desse momento, os funcionários organizaram uma força-tarefa para conseguir doações das roupas e das alianças. A cerimônia teve direito a tapete vermelho, padre para celebrar a união e a escolha das madrinhas: Terezinha escolheu a própria Ana Paula para o posto, enquanto Dito convidou a terapeuta ocupacional da época, Carol.
"No dia de São Pedro casamos. A Regina [funcionária] falou: 'vai casar agora viu, seu Benedito'. E aí eu falei: tudo bem. Gostei muito", diz Dito.
A emoção também marcou a lembrança da noiva. "Eu estava vestida de noiva, teve festa, o Dito estava bonito, teve aliança", conta Terezinha.
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Vida a dois e rotina compartilhada
Logo após a celebração, o casal manifestou o desejo de compartilhar o mesmo teto. A direção da Casa do Vovô providenciou a adaptação de um dos cômodos da instituição, onde instalou uma cama de casal e permitiu que os idosos escolhessem os móveis para o espaço.
"Depois do casamento eles já começaram a perguntar: 'mas vamos morar onde?'. E aí eles já queriam morar juntos. Era um casamento mesmo, né? Fazia todo sentido e a gente entendeu que seria importante eles terem a privacidade deles. E aí nós organizamos um quarto aqui, eles escolheram os móveis, colocamos cama de casal. Tudo do jeito deles."
A rotina do casal reflete a simplicidade e a parceria construída ao longo dos anos. Benedito é o primeiro a levantar, às 5h30. Ele gosta de cuidar do jardim e começa o dia regando as plantas da instituição. Terezinha desperta um pouco mais tarde, por volta das 7h30.
Segundo Ana Paula, durante as tardes, é comum ver os dois sentados juntos em uma mesinha montada bem na frente do quarto, passando o tempo com jogos de tabuleiro e conversando.
Muito católica, Terezinha também cultiva a fé ao lado do companheiro, e a instituição frequentemente organiza idas do casal para acompanhar as missas aos domingos.
A convivência dos dois segue as dinâmicas de qualquer relacionamento de longo prazo.
"A gente mora junto. De vez em quando a gente briga. Casal, né? É boa a companhia", afirma Dito.
Espaço adaptado para o casal nas dependências da Casa do Vovô, em Ribeirão Preto (SP)
Murilo Corazza/g1
O vínculo com parentes é restrito devido a questões do passado. Dito não tem contato com familiares, enquanto Terezinha perdeu o irmão há algum tempo. Ela recebe visitas esporádicas de uma sobrinha, que considera o relacionamento uma extensão da própria família.
Para a vice-presidente da instituição e madrinha do casamento, a história de Dito e Tetê simboliza o direito ao afeto na velhice.
A gente quer mostrar isso para evidenciar às pessoas a importância do amor na terceira idade. Traz uma sensação de pertencimento para eles. Eles têm um ao outro e a gente fica muito feliz de vê-los feliz. Todo mundo ama o Dito e a Tetê.
Casal Dito e Terezinha ao lado da madrinha de casamento Ana Paula, na Casa do Vovô, em Ribeirão Preto (SP)
Murilo Corazza/g1
*Sob supervisão de Thaisa Figueiredo
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