Crise no Haiti é a mais grave do hemisfério ocidental, diz chefe da ONU

  • 19/06/2026
(Foto: Reprodução)
Haiti foi tomado pela violência de gangues; hoje, segundo a ONU, um entre cada dois de seus membros são crianças. Hector Adolfo Quintanar Perez/ZUMA/picture alliance via DW O Haiti "enfrenta a crise mais grave do hemisfério ocidental", alertou na terça-feira (17) o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, durante viagem ao país caribenho. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Segundo Guterres, a nível global, a situação no Haiti só não é pior que no Sudão e nos Territórios Palestinos. Numa coletiva de imprensa com jornalistas, o chefe da ONU apontou a violência de gangues que "aterrorizam" a população como causa da crise que levou 1,5 milhão a fugirem para o interior do país e deixou mais da metade de seus 11,7 milhões de habitantes dependendo de ajuda humanitária para ter o que comer. "Cada dia é uma luta pela sobrevivência", disse Guterres sobre os haitianos. "Falei com muitos homens, mulheres e crianças que têm apenas uma refeição por dia." Agora no g1 A violência no país produziu 2,3 mil mortos só neste ano, segundo a ONU. Em 2024, o país era líder mundial em homicídios, de acordo com um levantamento da ONG Igarapé. Em média, mais de 20 mulheres e meninas foram agredidas por dia no primeiro trimestre deste ano, e o número de crianças recrutadas pelas gangues triplicou, informou Guterres. "Agora um em cada dois membros das gangues é uma criança." Guterres critica "indiferença" da comunidade internacional País mais pobre das Américas, o Haiti sofre há anos com a instabilidade, enquanto gangues poderosas assassinam, estupram, saqueiam e sequestram de forma desenfreada. "Vamos deixar claro: as gangues têm aterrorizado o Haiti. As instituições foram enfraquecidas", disse Guterres. "Mas a maior vergonha é a indiferença – a indiferença de um mundo que tem olhado para o outro lado." Guterres lamentou que o plano de resposta da ONU para o Haiti é o programa humanitário das Nações Unidas "menos financiado". Até agora, a entidade só conseguiu arrecadar 24% dos 880 milhões de dólares previstos para endereçar a crise. "O Haiti não pede caridade. O Haiti pede que o mundo cumpra sua palavra. E o Haiti não pode esperar", declarou. Guterres cumprimenta soldados do Chade enviados para participar de força especial contra gangues no Haiti. Danica Coto/AP Photo/dpa/picture alliance via DW Ele destacou que a Força de Repressão de Gangues (GSF, na sigla em inglês), aprovada pelas Nações Unidas em setembro passado para combater as gangues armadas e que prevê um efetivo máximo de 5,5 mil soldados de vários países, oferece uma "possibilidade real de fazer recuar a violência e restabelecer a autoridade do Estado". Até agora, Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala enviaram tropas menos de mil soldados para formar a GSF, que deve começar a operar nas próximas semanas. A força deve atuar em conjunto com a polícia nacional e as Forças Armadas. "Devo dizer que, ao ver as tropas que participam na Força de Repressão de Gangues, vi chadianos, jamaicanos e vamos ver bengalis. Não vejo os países desenvolvidos contribuírem. Penso que está na hora de os países em desenvolvimento começarem a participar neste tipo de operações", pontuou Guterres. Haiti sem eleições desde 2016 1º de março - Homem com o rosto coberto pede que os manifestantes parem durante um protesto contra o governo do primeiro-ministro Ariel Henry e a insegurança, em Porto Príncipe, Haiti Ralph Tedy Erol/Reuters A crise de segurança no Haiti se agravou no início de 2024, quando gangues lançaram uma onda de violência que forçou o primeiro-ministro do país, que não havia sido eleito, a renunciar. Ele foi substituído por um conselho presidencial interino, mas, quando o mandato do conselho expirou em fevereiro, o poder Executivo passou para o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé — que recebeu Guterres na chegada. O Haiti não realiza eleições desde 2016, principalmente por causa da insegurança. Seu último presidente, Jovenel Moïse, foi assassinado em julho de 2021. A posição estratégica do país, suas extensas fronteiras terrestres e marítimas — assim como seus numerosos portos públicos e privados, estradas precárias e pistas de pouso clandestinas — tornaram o país particularmente vulnerável ao tráfico de mercadorias contrabandeadas, especialmente armas de fogo, munições e drogas. O Haiti também depende fortemente de importações, com quase todos os setores de sua economia ligados a bens vindos do exterior. Como resultado, há um intenso fluxo de bens e serviços através de suas fronteiras e portos — o que oferece aos atores criminosos amplas oportunidades para contrabandear mercadorias ilegais. Gangues dominam cadeias de suprimentos e extorquem rotas comerciais e de transporte humanitário, o que lhes dá enorme poder para desviar recursos do Haiti e desestabilizar sua economia. E como são mais bem armadas que as próprias forças de segurança, elas conseguem se impor pela força.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/19/crise-no-haiti-e-a-mais-grave-do-hemisferio-ocidental-diz-chefe-da-onu.ghtml


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