Consumo sem freio: aplicativos e parcelamentos alimentam ciclo de endividamento

  • 10/05/2026
(Foto: Reprodução)
Mãos mulher telefone celular smartphone em mãos fazendo compras Freepik A crise do endividamento no Brasil levanta a questão sobre o papel das compras por impulso no comércio online, muitas vezes associadas a parcelamentos no cartão de crédito, o meio de pagamento que é a principal fonte de débitos no país. Os compradores compulsivos costumam ser influenciados por "gatilhos" que despertam neles a urgência em comprar, que é ainda facilitada pelo crédito oferecido dentro dos próprios aplicativos de compras. 🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a compulsão por compras atinja 8% dos consumidores em todo o mundo. Atualmente, 80% das compras virtuais no Brasil são feitas pelo celular, num mercado de R$ 258 bilhões por ano. Na televisão, marcas oferecem descontos constantes, enquanto lives com cupons se tornaram comuns usando influenciadores que estimulam a compra impulsiva. Vídeos em alta no g1 "Antigamente, nos espaços em que eu frequentava, o problema das compras compulsivas era só meu. Hoje, já vejo como algo geral", conta Camila Nunes, que alerta sobre o tema em suas redes sociais. Ela mesma sofre com a chamada oniomania, termo utilizado para descrever a compulsão por comprar. "Tinha um bom salário, o que acabou gerando crédito. Ultrapassava o limite do cartão, mas ele não parava de passar. Eu tinha também os cartões de todas as lojas de varejo e conseguia parcelar a fatura", relembra. Foi assim que Nunes chegou a contrair 21 empréstimos, o que, com os juros, gerou uma dívida de R$ 240 mil. Sempre existem juros embutidos "As parcelas dão a sensação de que o produto é mais barato porque o foco sai do valor total e vai para o valor mensal. Isso facilita a compra, mas pode levar ao acúmulo de dívidas, principalmente quando a pessoa não percebe o impacto dos juros ao longo do tempo", explica a educadora financeira e professora da FGV-IDE Ana Paula Hornos. "Sempre existem juros embutidos, aparentes ou não", pontua. O uso do cartão de crédito rotativo, a linha de crédito mais cara do mercado financeiro, somou R$ 109,65 bilhões no primeiro trimestre deste ano. É um aumento de 9,7% na comparação com o mesmo período do ano passado. Em março, a taxa de juros do rotativo do cartão de crédito somou 428,3% ao ano. Cartões de crédito (84,9%), crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%) representam os principais tipos de dívidas dos brasileiros, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). De acordo com a pesquisa, 80,4% das famílias se encontravam endividadas em março. Desenrola: confira as regras do novo programa de renegociação de dívidas Busca por tratamento em alta A psicóloga e especialista em transtornos do impulso Tatiana Filomensky, que realiza atendimentos na área, aponta que "nunca houve tantas pessoas buscando ambulatório" para lidar com a questão. Segundo ela, pacientes podem aguardar anos para conseguir uma consulta. "Tive relações muito desgastadas por dívidas. Via a vida dos outros passando e a minha parada enquanto estava endividada. É um vício silencioso e solitário", conta Nunes. O fato de ser menos conhecida que outras compulsões, como álcool, drogas e apostas, faz com que a busca por ajuda seja limitada, avalia. "Recebo muitas mensagens, em um nível que não consigo acompanhar", conta. "As pessoas se identificam com meu conteúdo e veem que há tratamento", pontua. Além dos tratamentos clínicos para lidar com a compulsão, no Brasil há hoje o grupo Devedores Anônimos. As reuniões ocorrem nos moldes de outros grupos, como os mais famosos para o álcool e os narcóticos. "Sites prejudicam muito os compulsivos" Na visão de Nunes, o cenário atual online prejudica muito os compulsivos. Ela conta que seu cérebro só a deixava em paz depois de comprar, e que muitos dos itens adquiridos serviam para lidar com a ansiedade. A influenciadora diz que o tema é banalizado por varejistas, que divulgam conteúdos sugerindo que comprar é uma terapia. "O meme 'me mimei', ou alguém com diversas sacolas e a descrição 'eu na vida'... São sempre comentários brincando", afirma. "É normalizado, até que a pessoa acaba indo para o buraco. Vi muitos seguindo o mesmo caminho que eu", comenta. "Promoções, notificações e recomendações constantes aumentam a vontade de consumir o tempo todo, diminuindo o tempo de pensar antes de comprar. Quanto menor o tempo de análise, maior a chance de a decisão sair do controle e ir para a impulsividade", pontua Hornos. "O ambiente online facilita muito a compra por impulso porque tudo é rápido e acessível. Com poucos cliques, a pessoa sai do desejo para a compra", explica. "Ocorreu uma inversão no processo de consumo. Hoje não se consome tanto pela necessidade ou desejo, e sim pelos descontos", pontua Filomensky. Entre as estratégias dos varejistas, ela aponta que "há estímulo contínuo por descontos, de forma a sugerir uma corrida contra o tempo". Um exemplo são campanhas que surgiram nos últimos anos, como aquelas que oferecem ofertas a cada mês com datas repetidas, como 03/03, 04/04, 05/05, e assim de forma sucessiva. Filomensky lembra que essas modalidades antes estavam mais restritas a certos períodos do ano, como a Black Friday, mas que hoje ocorrem quase a todo tempo. Varejistas vêm oferecendo padrões como 48 horas de promoção ao longo do ano em seus aplicativos, com descontos de até 70% e até 21 parcelas. "Essas campanhas criam senso de urgência e medo de perder a oportunidade. Isso leva a compras rápidas, muitas vezes sem planejamento. No longo prazo, pode virar um hábito de consumir por impulso e desorganizar a vida financeira", aponta Hornos. Outro fator destacado por Filomensky são os influenciadores. "Quando se segue alguém, perde-se muitas vezes a visão crítica", explica. Em casos de aplicativos de vídeos curtos, o scroll na tela, muitas vezes quase automático, acaba misturando publicidade a outros conteúdos de forte engajamento, o que acaba tornando o ambiente mais impulsivo, pontua. Parte da estratégia passa pelos chamados programas de afiliados, que redes sociais promovem para os seus criadores de conteúdo. Os influenciadores e as marcas podem se conectar pela própria plataforma, e as comissões também são pagas pelo sistema. Crédito na própria plataforma No final de março, a agência de notícias Reuters informou que o TikTok fez contato com o Banco Central para oferecer serviços como instituição financeira. A medida permitiria à empresa, que desde o ano passado opera o TikTok Shop no Brasil, oferecer seu próprio capital para empréstimos ou atuar como um intermediador entre tomadores e credores. De alguma maneira, o cenário é recorrente entre os varejistas online, e remete aos antigos crediários das lojas físicas. O Mercado Livre conta com seu próprio sistema de pagamentos, o Mercado Pago, enquanto a Shopee desde 2022 tem autorização para oferecer sistema de pagamentos no Brasil. A estratégia traz ainda mais preocupação para analistas. "Quando o crédito está disponível na própria plataforma, a compra fica ainda mais fácil. A pessoa vê o produto, se empolga e já consegue pagar ali mesmo, sem pausa para refletir. Isso aumenta o risco de decisões impulsivas e de endividamento", aponta Hornos. "É o dinheiro rápido e fácil encontrando o desejo imediato: o prazer vem na hora, e o custo fica para depois, muitas vezes sem tempo suficiente para avaliar o endividamento que está sendo assumido", completa. Na visão de Filomensky, a "ampliação de crédito dentro da própria empresa não permite conversas sobre o quanto se deve". Ela lembra ainda a necessidade de abrir o aplicativo do varejista para realizar o pagamento, o que pode reforçar novas compras. Numa analogia com as lojas físicas, é como a estratégia que certas empresas adotavam de posicionar os caixas onde os crediários são pagos ao fundo das unidades, criando a tentação de que o cliente adquira novos produtos no caminho até elas, compara.

FONTE: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/05/10/consumo-sem-freio-aplicativos-e-parcelamentos-alimentam-ciclo-de-endividamento.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

No momento todos os nossos apresentadores estão offline, tente novamente mais tarde, obrigado!

Top 5

top1
1. Don't Let Me Down

The Beatles

top2
2. Epitaph

King Crimson

top3
3. Feeling Good

Nina Simone

top4
4. Somebody To Love

Queen

top5
5. Lady Laura

Roberto Carlos

Anunciantes