(Foto: Reprodução) Desenrola 2.0: governo lança nesta segunda novo pacote para renegociação de dívidas
As famílias brasileiras nunca estiveram tão endividadas. Dados do Banco Central mostram que quase 30% da renda mensal dos lares está comprometida com dívidas, o maior patamar da série histórica.
Na terça-feira (5), a Serasa Experian informou que 82,8 milhões de brasileiros estavam endividados em março, o equivalente a 49% da população brasileira.
Diante desse cenário, o governo federal lançou nesta semana o Novo Desenrola Brasil, um programa que promete renegociar débitos e facilitar o acesso ao crédito para famílias de baixa renda. Podem aderir pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, o equivalente a R$ 8.105 (leia mais abaixo).
Por trás desses números está uma mudança na forma como milhões de brasileiros passaram a consumir — e a se endividar. O crédito, que ampliou o acesso a bens nas últimas duas décadas, também alterou a lógica de compra: cada vez mais, primeiro se consome, depois se paga.
Homem carrega caixas com eletrodomésticos durante liquidação da loja Magazine Luiza no centro de Franca, no interior de São Paulo. A rede realiza nesta sexta-feira (8) sua tradicional promoção com descontos de até 70%
Marcos Limonti/Código 19/Estadão Conteúdo
A diarista Silvana Chagas Bernardo Severino, de 56 anos, vive essa realidade. Moradora do Itaim Paulista, na Zona Leste de São Paulo, ela se separou do marido em 2024. Desde então, diz que as contas ficaram mais difíceis de organizar.
Sem cartão de crédito próprio, passou a usar o de familiares para conseguir comprar o que precisa.
“Eu uso o cartão da minha filha. Às vezes uso de outra pessoa também. Aí vira aquele bolo, né? Eu pago de uma, pago de outra e é nisso que eu me embolo”, contou ao g1.
Com renda instável, que varia conforme os dias de trabalho, ela diz que pode ganhar cerca de R$ 2.500 em meses mais cheios, mas muitas vezes recebe menos. Hoje, o orçamento precisa dar conta do aluguel de R$ 750, além de contas básicas como água e luz.
“Eu uso o cartão para fazer compra, para comprar uma roupa. Há pouco tirei uma televisão. Agora quero tirar uma geladeira, porque eu não tenho.”
A diarista Silvana Chagas Bernardo Severino comprou uma televisão parcelada.
Arquivo pessoal
'Passa no crédito'
Histórias como a de Silvana aparecem com frequência nas periferias paulistanas e ajudam a explicar uma transformação mais ampla no padrão de consumo no país.
Foi justamente tentando entender essa dinâmica que o geógrafo e professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Kauê Lopes dos Santos realizou uma pesquisa em campo, ao longo de mais de uma década, passando pelo bairros de Brasilândia, Jardim Helena e Jardim Ângela.
Em um desses bairros, no Jardim Helena, na Zona Leste, ele se deparou com uma cena que ajudaria a sintetizar essa mudança — e que mais tarde daria origem ao livro "Parcelado: Dinâmicas de Consumo na Periferia", lançado em abril pela Editora Fósforo.
Uma televisão gigante domina a sala da costureira Maria do Carmo. Presa à parede, acima de móveis antigos e marcas de infiltrações, ela chama a atenção de quem entra.
O geógrafo e professor paulistano Kauê Lopes dos Santos é autor do livro 'Parcelado'.
Divulgação
Enquanto conversava com a dona da casa, o geógrafo percebeu o olhar escapar para o aparelho. A costureira interrompeu a própria fala. “Ela é linda, né? Enorme. Tem 43 polegadas", disse.
“Foi caro. Mas isso nem importa tanto, porque eu comprei parcelado. Tudo aqui nesta casa foi comprado parcelado.”
Para o pesquisador, que iniciou o estudo ainda no mestrado na Universidade de São Paulo (USP), em 2009, e seguiu acompanhando essas dinâmicas por mais de uma década, situações como esta ajudam a revelar como o crédito passou a organizar o cotidiano de consumo nas periferias.
“O crédito ampliou o consumo, mas isso não necessariamente reduziu a pobreza. A gente está diante de uma questão de fundo: se estamos diante de uma nova pobreza urbana ou não.”
Consumo acelerado
Segundo Santos, a principal mudança nas periferias nas últimas décadas não foi apenas o aumento do consumo, mas a forma como ele passou a acontecer — e também a velocidade com que os produtos entram e saem das casas.
Antes, a aquisição de bens duráveis dependia de poupança: era preciso juntar dinheiro por meses, ou anos, para comprar uma geladeira ou uma televisão.
Com a expansão do crédito, essa lógica foi invertida e passou a dialogar com um sistema mais complexo, que envolve publicidade, varejo e a própria dinâmica de substituição constante de produtos.
“O que o crédito vai fazer é, na verdade, alterar essa lógica de funcionamento e garantir mais celeridade no fluxo de compra, uso e descarte, pensando na forma como se dá o consumo.”
Megaliquidação
Divulgação
Na prática, isso significa que famílias passaram a consumir mais — e mais rápido — mesmo sem um aumento proporcional da renda. Ao mesmo tempo, as condições estruturais dos bairros pouco mudaram.
“O contraste é muito visível e muito brasileiro: uma TV de última geração dentro de casa e, do lado de fora, ruas sem asfalto, sem saneamento básico”, destaca o pesquisador.
Para Santos, o avanço do crédito fez com que as parcelas passassem a ocupar uma fatia cada vez maior do orçamento das famílias. Com o consumo mais acelerado, sobra menos renda disponível, o que reduz a capacidade de comprar à vista e aumenta a dependência de novas dívidas.
“A compra parcelada vai ocupando cada vez mais espaço no orçamento doméstico porque o ciclo de consumo é mais rápido, seja pela obsolescência, seja pela publicidade. Então, a renda já fica comprometida e, muitas vezes, a pessoa precisa parcelar de novo ou recorrer a crédito para conseguir fechar o mês”, afirma.
Segundo ele, essa nova lógica estimula o consumo contínuo, especialmente entre populações que historicamente tiveram acesso limitado a bens. Nos anos 2010, em meio a uma crise financeira internacional, esse processo foi intensificado por medidas do governo que estimularam o consumo interno como motor da economia.
A expansão do crédito nas periferias, portanto, faz parte de um movimento de integração desses territórios ao sistema financeiro, com atuação crescente de bancos, financeiras e grandes redes varejistas.
“Criou-se uma massa de consumidores bancarizados. Esse consumo foi muito celebrado — pela população e também pelos governos — como sinal de melhora de vida", afirma.
Mas essa inclusão se deu sob condições desiguais. Enquanto amplia o acesso a bens, o crédito também expõe famílias de baixa renda a juros elevados e a uma maior vulnerabilidade financeira.
Lei 1.820 de 2013 proibia cobrança de frete para mercadorias de lojas de móveis, eletrodomésticos e materiais de construção
Elza Fiuza/Agência Brasil
Endividamento
Nesta semana, o avanço desse modelo voltou ao centro do debate. O governo federal anunciou novas regras para o crédito consignado privado, com a previsão de punições a instituições que cobrarem juros considerados abusivos — uma tentativa de frear o custo das dívidas para trabalhadores.
Hoje, o cartão de crédito é um dos principais motores do superendividamento no país, com juros elevados e grande impacto no orçamento das famílias.
Estar endividado, neste contexto, não significa necessariamente estar com contas atrasadas, mas viver com parte da renda comprometida por parcelas e crédito. O que, em cenários de renda instável, pode levar à inadimplência, segundo o pesquisador.
Além do recorde no comprometimento da renda, o endividamento total das famílias brasileiras já se aproxima de metade dos ganhos anuais, segundo o Banco Central.
Levantamentos mostram ainda que dois em cada três brasileiros têm dívidas, muitas vezes acumuladas entre bancos, cartões e até familiares. E não é só em relação a bancos: 41% dos que pegaram empréstimo com conhecidos, como amigos e familiares, não devolveram o dinheiro.
Para equilibrar as contas, estratégias como cortar lazer, reduzir gastos e priorizar pagamentos tornaram-se comuns entre as famílias — um retrato do aperto financeiro que atinge quase metade da população.
Segundo Santos, esse cenário não é um desvio, mas uma consequência direta do modelo. “Os altíssimos índices de inadimplência e insolvência são efeitos desse processo que se consolidou nas últimas duas décadas."
Crédito, dívida e racismo
Para o pesquisador, essa dinâmica não pode ser entendida sem se considerar o fator racial. As periferias de São Paulo, onde a expansão do crédito foi mais intensa, são também territórios majoritariamente negros e historicamente marcados por desigualdades estruturais.
Segundo o Mapa da Desigualdade, o Jardim Ângela, no extremo da Zona Sul de São Paulo, tem o maior percentual de negros da cidade: 60,1%. A taxa é 10,3 vezes maior do que a de Moema, região nobre da Zona Sul, que concentra apenas 5,8% de pretos ou pardos.
“Endividamento, crédito e racismo estão interligados. Você amplia o acesso ao consumo, mas não resolve as desigualdades estruturais, e isso faz com que a dívida pese mais sobre a população negra", diz.
Segundo ele, a ampliação do acesso ao consumo não foi acompanhada por melhorias equivalentes em renda, infraestrutura ou serviços públicos, o que faz com que a dívida pese mais sobre essas populações.
“Você incorpora essas pessoas ao consumo, mas em condições desiguais. E isso tende a reforçar um ciclo de desvantagens.”
Chuva da madrugada deixou Jardim Helena, Zona Leste de SP, alagado.
EDI SOUSA/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Desenrola 2.0
O avanço do endividamento das famílias brasileiras voltou ao centro das preocupações da economia e já mobiliza bancos, varejistas e o governo. Em fevereiro, o indicador atingiu 49,9% da renda — o maior nível da série histórica do Banco Central do Brasil (BC), iniciada em 2005.
É nesse cenário que o governo lançou o “Novo Desenrola Brasil”, um pacote para destravar renegociações e aliviar o peso das dívidas.
A medida chega em um momento de forte expansão do crédito: hoje, 130 milhões de pessoas — cerca de 74% da população com relacionamento bancário — têm limite disponível.
Em quatro anos, 32 milhões passaram a acessar esses produtos, um salto de 34%, segundo o relatório de Cidadania Financeira, do BC.
Com duração de 90 dias, o Novo Desenrola Brasil é uma iniciativa voltada à renegociação de dívidas em atraso. A proposta é facilitar a regularização da situação financeira dos consumidores, com possibilidade de reduzir o valor devido e recuperar o acesso ao crédito.
No fim de 2024, mais de 73 milhões de brasileiros estavam com o nome negativado, segundo dados do Banco Central. As dívidas com bancos e cartões de crédito concentram 27,4% desse total. Em março deste ano, esse número chegou a 82,8 milhões de pessoas, segundo a Serasa.
Além disso, o número de pessoas com dificuldades mais graves para pagar dívidas também cresceu. Em dezembro, cerca de 16% dos brasileiros com crédito ativo estavam com atrasos superiores a 90 dias.
Entre 2020 e 2024, esse grupo aumentou em 6 milhões de pessoas, chegando a 18,9 milhões — um avanço de 47% no período, acima do crescimento do acesso ao crédito.