Calor extremo faz jogadores de futebol cometerem menos faltas, mostra estudo com 1 milhão de partidas

  • 04/07/2026
(Foto: Reprodução)
cartão vermelho Pexels Um estudo com quase 1 milhão de partidas de futebol amador disputadas na Alemanha chegou a uma conclusão que vai na contramão do que boa parte da ciência vinha apontando até agora: em dias de calor extremo, os jogadores cometem menos faltas violentas, e não mais. A pesquisa, publicada na revista científica "PNAS Nexus", mostra que o número de cartões amarelos e vermelhos aplicados pelos árbitros cresce conforme a temperatura sobe — mas só até um certo limite. Depois desse ponto, a curva se inverte, e as partidas disputadas em dias muito quentes registram, em média, 15% menos cartões do que o normal. Acompanhe a Copa do Mundo 2026 no ge: Simulador da Copa do Mundo 2026 Calendário da Copa do Mundo 2026: veja datas e horários de todos os jogos RESULTADOS: confira a tabela da Copa do Mundo Há décadas, estudos em diferentes áreas associam calor a mais violência, de brigas de rua a crimes domésticos, alimentando até projeções de que o aquecimento global tende a aumentar conflitos no futuro. O problema é que grande parte dessas evidências vem de experimentos de laboratório com grupos pequenos ou de registros criminais, que têm limitações conhecidas: no caso dos crimes, por exemplo, o calor também muda o comportamento das vítimas e a própria rotina das pessoas nas ruas, o que confunde a análise. ⚽ Para tentar isolar o efeito puro da temperatura, os pesquisadores recorreram a um ambiente bem mais controlado: o futebol amador. Eles analisaram partidas disputadas entre julho de 2022 e setembro de 2025 nas divisões amadoras da federação alemã de futebol, envolvendo mais de 1 milhão de jogadores. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia A vantagem desse recorte é permitir uma comparação mais controlada: as regras são as mesmas, as partidas são marcadas com semanas de antecedência, sem influência da previsão do tempo, e os jogadores não podem abandonar o campo simplesmente porque a temperatura subiu. Assim, usando os cartões distribuídos pelos árbitros como um indicador de agressividade em campo, e comparando partidas do mesmo local, liga e temporada para eliminar outras variáveis, os cientistas identificaram uma curva em formato de U invertido: a quantidade de cartões cresce junto com a temperatura até por volta de 13°C e, a partir daí, começa a cair. ➡️ Acima de 32°C, ápice da amostra, o efeito já é bem visível. "A agressividade realmente aumenta com a temperatura, mas só até certo ponto. Depois disso, ela cai", disse ao g1 Sascha Riaz, professor de Ciência Política na Singapore Management University e principal autor do estudo. Segundo ele, o resultado chama atenção justamente por contrariar o senso comum: "exatamente nas temperaturas em que a visão convencional prevê mais agressividade, observamos menos, não mais". Agora no g1 Por que o calor 'esfria' o jogo A explicação mais provável, segundo os pesquisadores, não é psicológica, mas física. Grande parte das faltas que rendem cartão nasce de disputas de bola em alta intensidade — carrinhos mal calculados, entradas atrasadas, disputas de cabeça no limite do esforço. Em dias muito quentes, os jogadores parecem administrar melhor as próprias forças, como um maratonista que reduz o ritmo para não desabar antes da linha de chegada. Com menos lances de alta intensidade, sobram também menos oportunidades para uma falta acontecer. "Em dias muito quentes os jogadores se poupam e reduzem o esforço físico, então surgem menos situações de alta intensidade — e menos delas terminam em falta", explicou Riaz. Dois achados do próprio estudo reforçam essa leitura: o ponto de virada calculado, por volta de 13°C, coincide com a faixa de temperatura já apontada por outras pesquisas como ideal para o desempenho físico prolongado. Além disso, a queda é mais forte nos cartões amarelos — geralmente ligados a lances de disputa física — do que nos vermelhos, que costumam punir infrações sem relação direta com esforço, como ofensas verbais ao árbitro. Os autores também descartaram, com base em pesquisas anteriores, a hipótese de que os próprios árbitros mudassem seu critério de julgamento com o calor: estudos já mostraram que a capacidade de decisão de árbitros de futebol não piora em condições de calor extremo, o que reforça que a mudança está no comportamento de quem está em campo, e não em quem apita o jogo. LEIA TAMBÉM: Astronauta da Nasa flagra fenômeno luminoso raro durante tempestade vista do espaço; entenda Em fenômeno inédito, cientistas descobrem planeta que acelera sua própria destruição; entenda O teste de DNA em osso que pode reescrever a história do Egito antigo Árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio dá cartão vermelho durante o jogo de abertura da Copa do Mundo (México x África do Sul) Yuri Cortez/AFP Alerta para a Copa do Mundo Apesar do tamanho da amostra, os próprios pesquisadores fazem ressalvas. Apenas 0,2% das partidas analisadas foram disputadas acima de 32°C, e a maior parte do banco de dados vem de times masculinos, o que limita a possibilidade de generalizar os achados. "O calor extremo é raro na Alemanha. Se esses achados valem para outros contextos é algo que pesquisas futuras precisam investigar", ponderou o pesquisador. Mas com a Copa do Mundo de 2026 em andamento e uma onda de calor prevista para atingir parte dos Estados Unidos nos próximos dias, é tentador imaginar se o mesmo padrão vale para o futebol profissional. Riaz é cauteloso: o estudo foi feito justamente com amadores, deixando de fora atletas de elite, que contam com pausas para hidratação, aclimatação prévia ao calor e, em muitos casos, estádios com clima controlado — fatores que podem amenizar o efeito observado entre amadores. Mais importante, segundo o próprio autor, é não tirar da pesquisa uma conclusão equivocada sobre segurança. "Menos cartões não deve ser confundido com prova de que o calor é inofensivo", afirmou Riaz. Para ele, se a interpretação do estudo estiver correta, os jogadores jogam de forma mais contida justamente porque o corpo já não aguenta manter a intensidade normal sob calor extremo. "O jogo mais contido é um sintoma de corpos sob estresse térmico", resumiu — um lembrete de que, mesmo com menos faltas em campo, o calor extremo continua sendo um risco real à saúde de quem joga. Homam Ahmed, do Catar, recebe cartão amarelo durante partida contra o Canadá pela Copa do Mundo de 2026. O jogador foi expulso após revisão do lance pelo VAR. Anne-Marie Sorvin/Imagn Images via Reuters LEIA TAMBÉM: Espécie achada em esterco de gado pode explicar a origem do 'cogumelo mágico' mais cultivado do mundo Cientistas encontram fóssil de tiranossauro gigante que pode ser parente antigo do T. rex Estudos sugerem que o Sol 'fugiu' do centro da Via Láctea junto com estrelas gêmeas Fotógrafo do RS faz imagem incrível de cometa 'mais brilhante do ano'

FONTE: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/07/04/calor-extremo-faz-jogadores-de-futebol-cometerem-menos-faltas-mostra-estudo-com-1-milhao-de-partidas.ghtml


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