Brasileira detida pelo ICE relata dias de abuso psicológico, falta de banho e comida estragada: 'Me trataram como uma criminosa'

  • 20/03/2026
(Foto: Reprodução)
Brasileira detida pelo ICE relata dias de abuso psicológico e maus-tratos "Me trataram como uma criminosa, porque eles fazem um geral, não ficam distinguindo quem é quem. A todo momento você é tratada e olhada como uma criminosa". O relato é da brasileira Michele Patrícia Vieira, de 39 anos, que foi detida pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Orlando, nos Estados Unidos, enquanto estava com um pedido de asilo em andamento. Durante duas semanas, ela viveu momentos de abuso psicológico e maus-tratos, sendo privada de tomar banho e obrigada a comer pão embolorado. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Michele saiu de Sorocaba, no interior de São Paulo, com destino à cidade da Flórida há quatro anos com o marido e os dois filhos, de sete e 21 anos, em busca de segurança após sofrer ameaças no Brasil. A situação a motivou a entrar com o pedido de asilo no país norte-americano. O processo está em andamento, com provas documentadas. Mesmo assim, por volta das 8h do dia 5 de fevereiro, uma quinta-feira, ela foi abordada por agentes do ICE, alegando que, como o pedido de asilo ainda constava como pendente, não era considerado válido. A brasileira, que atua na área da limpeza nos EUA, havia acabado de deixar a filha na escola e estava a caminho do trabalho. "Eu estava dirigindo, não cometi nenhuma infração de trânsito nem nada. Eu simplesmente estava dirigindo quando percebi que tinha um carro atrás de mim. De repente, o giroflex ligou e eu entendi que teria que ir para o acostamento. Quando cheguei no acostamento, fui abordada por dois policiais e questionei: 'Por que eu estou sendo abordada?'. Eles me falaram que verificaram a minha placa, viram o meu nome estrangeiro e viram que eu tinha um asilo pendente, que, naquele momento, não significava nada para eles", relata. Michele Patrícia Vieira vive com o marido e os filhos nos EUA Arquivo pessoal Apesar de ter ligado para a advogada para pedir orientações e de ter mostrado todos os documentos necessários aos policiais, Michele foi levada algemada para a sede do ICE, onde ficou durante três dias. Em seguida, foi encaminhada para a cadeia e lá ficou por mais três dias. "Fiquei seis dias sem banho. Nesses dias em que eu estava lá, não tinha água para beber e a comida era péssima. Também não conseguia comer, porque tinha coisa estragada no meio. Normalmente, eram um café da manhã, um almoço e a janta deles é um pão com mortadela. A comida não tinha como comer, sempre tinha um cheiro ruim, meio de azedo, e o pão estava sempre embolorado, porque acho que eles fazem em grande quantidade e armazenam para não ter trabalho, sabe? Então, não conseguia comer", lembra. De volta ao ICE, a brasileira passou o tempo todo algemada na cintura, braços e pés. "Tive que dormir algemada, tive que comer algemada, tudo algemada. Por dois dias, sem tirar aquilo em nenhum momento." LEIA MAIS: Suspeito de matar e esquartejar a ex-mulher haitiana em Votorantim entra para a lista da Interpol Mulheres realizam sonho de viajar o mundo sozinhas com apoio de agências especializadas no interior de SP: 'Ato de muita coragem' Brasileiro que viajava para Tailândia conta sobre desvio de rota e 3 horas dentro de avião por conta de ataques no Irã: 'Foi um caos' Por fim, Michele foi encaminhada a uma cadeia em Jacksonville exclusiva para presos pelo ICE por questões de imigração. Ela ficou mais oito dias no local até pagar a fiança estipulada pelo juiz e ser finalmente liberada. "Lá foi um pouco melhor, porque era tudo novo, as coisas não fediam, as roupas de cama não fediam. Não tinha roupa de cama, na verdade. Era só um lençol comum com uma cobertinha bem fininha, um colchão bem fino. Nada é bom porque, para eles, a gente é um criminoso. Então, nada é confortável, nada é bom. A comida era do mesmo jeito: péssima. Tudo péssimo." Sorocabana mora em Orlando com o marido e os dois filhos, de sete e 21 anos Arquivo pessoal Violência emocional Além dos maus-tratos na cela, Michele relata que os agentes de imigração faziam pressão diariamente para que ela assinasse um documento autorizando a sua deportação para o Brasil. De acordo com a brasileira, o mesmo "acordo" foi oferecido às outras 12 pessoas que foram presas no mesmo dia que ela, mas Michele foi a única que decidiu não assinar os papéis. "Houve abuso psicológico. Diversas vezes eles me faziam querer assinar um documento para eu me autodeportar. Inclusive, chegaram a falar que já tinham pegado o meu marido, que ele já tinha assinado. Sempre que eu via uma mulher específica, ela falava isso para mim: 'Acabamos de pegar o seu marido, nós estamos com o seu marido aqui'. Eu falava: 'Se ele assinou, ok. Eu não vou assinar nada. Você pode me mandar para onde você quiser, eu tenho certeza do porquê eu estou aqui. Eu tenho documento e sei que tenho a minha família me esperando lá fora'", conta. Quando estava na cadeia normal, Michele tinha direito a fazer ligações telefônicas de até 15 minutos. Já em Jacksonville, podia utilizar tablets para fazer videochamadas. Foi desta forma que ela manteve contato com a família até ser liberada, no dia 17 de fevereiro. Fiança paga Para arcar com os custos da fiança de US$ 6.500, advogada de imigração e outras despesas legais, tradução de documentos brasileiros, taxas e aluguel do pátio onde o carro de Michele ficou retido, a família criou uma campanha online de arrecadação de doações. Ao todo, foram arrecadados US$ 7,5 mil - metade do total de US$ 13 mil que os familiares gastaram. Initial plugin text Apesar da liberação, no entanto, o pedido de asilo de Michele continua em análise. Em breve, ela participará de mais duas audiências com o juiz, sendo a primeira para explicar os motivos pelos quais deseja ficar nos Estados Unidos e a segunda para apresentar a documentação necessária e, enfim, receber uma resposta definitiva sobre a situação. As datas ainda não foram divulgadas. "Eu estava dirigindo para o meu trabalho, porém me pegaram e me prenderam, falando que não era um visto válido. Mas, depois que eu fui presa e paguei a fiança, agora tudo bem, agora eu posso andar na rua? Eu não entendo isso. A impressão que dá é que somente o meu dinheiro era válido. Agora, a minha advogada diz que eles não podem me prender mais, mas, ainda assim, a minha família corre o risco de ser presa. Então, teria que passar por todo esse processo também, caso um deles vá preso", explica. Para quem viveu na pele dias difíceis nas mãos dos agentes do ICE, fica a reflexão de que é necessário seguir as regras impostas pelo país para conseguir o visto válido e dar um futuro melhor aos filhos. "Eu acho a situação do ICE desumana. Concordo em tirarem pessoas que têm problemas com crime, quem faz coisas erradas, porque a gente sabe que têm muitos aqui que não estão andando conforme a lei, porque os EUA são para todo mundo, mas nem todo mundo é para os EUA. Tem gente que chega aqui achando que pode fazer o que quer e o que não quer. E aqui não é assim, não funciona dessa forma. Então, no meu ponto de vista, eu não concordo com quem está aqui para fazer coisa errada e dar uma visão distorcida de como nós [imigrantes] somos. Nós, eu estou falando das pessoas que estão procurando uma coisa melhor para a sua família. Não só brasileiro, todas as etnias", completa. Michele Patrícia Vieira com a filha mais nova, de sete anos, na Flórida Arquivo pessoal O que dizem as autoridades? Em nota, o Itamaraty informou que a rede consular brasileira nos Estados Unidos está particularmente dedicada aos brasileiros detidos pelo ICE e a seus familiares, a fim de prestar a assistência consular, dentro da legislação internacional e norte-americana. No caso da nacional, o Consulado-Geral do Brasil em Orlando esta à disposição para prestar o atendimento e a orientação cabíveis. "Em atendimento ao direito à privacidade e em observância ao disposto na Lei de Acesso à Informação e no decreto 7.724/2012, o Ministério das Relações Exteriores não divulga informações pessoais de cidadãos que requisitam serviços consulares e tampouco fornece detalhes sobre a assistência prestada a brasileiros", completa. O g1 também entrou em contato com o ICE, que não retornou até a última atualização desta reportagem. *Colaborou Ana Carolina Cirullo Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/03/20/brasileira-detida-pelo-ice-relata-dias-de-abuso-psicologico-falta-de-banho-e-comida-estragada-me-trataram-como-uma-criminosa.ghtml


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